RIO DE JANEIRO — A tradição de distribuir doces no dia de São Cosme e Damião tenta se manter no Rio de Janeiro com mudanças na forma de celebrar. Em vez de esperar as crianças aparecerem nas portas das casas, devotos passaram a organizar festas em templos e a procurar locais onde elas estejam reunidas.
A comemoração ocorre em meio à aproximação entre referências católicas, do candomblé e da umbanda. Na paróquia dos santos gêmeos, no Andaraí, o diácono Eugênio Júnior explica que a Igreja Católica reconhece a santidade apenas de Cosme e Damião. Doum, frequentemente representado ao lado dos irmãos, é uma figura popular da umbanda.
A Igreja celebra os santos em 26 de setembro, mas a paróquia também realiza a comemoração em 27 de setembro, data associada às homenagens populares. Eugênio afirma que a separação entre as celebrações católicas e os ritos da umbanda é difícil para muitos devotos.
A tradição cristã diz que os irmãos eram médicos e atendiam doentes por caridade na região do mar Egeu, entre a Europa e a Ásia. Eles teriam sido martirizados durante a perseguição romana aos cristãos no século 3, depois de sobreviverem a tentativas de execução por incêndio, lapidação e flechadas. Ao final, foram decapitados.
Doces e promessas
No candomblé, os ibejis são meninos gêmeos. Na umbanda, os erês são espíritos de crianças que descem ao plano terreno para aconselhar em troca de doces e guaraná. Nesse contexto de sincretismo, consolidou-se, na primeira metade do século 20, o costume de distribuir sacos de doces.
A composição tradicional inclui cocada, maria-mole, suspiro, paçoca e pé-de-moleque. Com o tempo, balas, gomas de mascar, bombons e barras de chocolate também passaram a fazer parte dos saquinhos.
Amanda Teixeira, 43, vai distribuir os doces pela primeira vez como pagamento de uma promessa. Ela planeja entregar 50 saquinhos e aumentar a quantidade para 100 e depois 150 caso sua situação melhore.
Na Barra da Tijuca, onde mora, Amanda pretende fazer a entrega de carro. Segundo ela, algumas famílias não aceitam os doces, enquanto outras ficam nos canteiros da avenida principal aguardando a distribuição. A babá Kelly Reis, 32, ajudou a definir os produtos, combinando doces tradicionais e itens mais recentes.
Celebrações em templos
No templo de umbanda Ogum Beira-Mar, no Cachambi, Tiane Appolinário, 47, dirigente da casa, preparou brinquedos, saquinhos de doces e um enxoval para gestantes com outros dirigentes. Também está prevista uma gira com os erês. O templo reúne cerca de 350 médiuns e recebe outras centenas de visitantes ao longo do dia.
Tiane, que foi batizada na igreja de São Cosme e Damião, lembra que faltava às aulas para pegar doces. Ela afirma que hoje é necessário perguntar às mães se as crianças recebem os produtos, algo que considera diferente do que ocorria no passado.
Na paróquia, a trezena inclui bateria de escola de samba e festival de pastel. O padre Rodrigo Brum defende a união entre fé e cultura para aproximar as pessoas da celebração.
Os primeiros registros da festa em jornais cariocas aparecem a partir da década de 1940. Antes disso, já havia no candomblé baiano o caruru dos meninos, oferecido aos ibejis.
Devotos atribuem a redução do entusiasmo infantil ao avanço da cultura evangélica, à facilidade de comprar chocolate e à menor convivência entre vizinhos nas grandes cidades. Bianca Chaves, dirigente do templo Ogum Beira-Mar, diz que a violência reduziu a distribuição nas ruas, mas que a procura por festas organizadas no templo aumentou nos últimos três ou dois anos. Ela prepara eventos para centenas de crianças há cerca de oito anos.



