SÃO PAULO — A Quimicolor recebeu R$ 25,84 milhões por meio de uma conta na BK Instituição de Pagamento, segundo denúncia do Grupo de Atuação contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo. Entre os repasses identificados está uma transferência de R$ 620 mil feita pela Entre Investimentos, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro.
A movimentação financeira foi identificada após a quebra do sigilo bancário de contas mantidas na BK, investigada na Operação Carbono Oculto. A denúncia foi apresentada em 18 de agosto e classifica a Quimicolor como uma empresa fictícia usada para ocultar os responsáveis por pagamentos de metanol que, posteriormente, teria sido desviado para adulterar combustíveis.
O documento não informa quando ocorreu o repasse da Entre Investimentos, quem o solicitou ou qual negócio teria justificado a transferência. Também não estabelece ligação entre os R$ 620 mil e as operações descritas por Freixo em seu acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. O empresário e a Entre Investimentos não foram denunciados na ação sobre o desvio de metanol.
Origem e destino dos pagamentos
De acordo com o Gaeco, parte dos recursos recebidos pela Quimicolor veio de postos de combustíveis, lojas de conveniência, transportadoras, empresas investigadas e pessoas jurídicas fictícias. A empresa estava registrada em Atílio Vivácqua, no Espírito Santo, e encerrou as atividades em 2025.
A denúncia afirma que a Quimicolor ficou sucessivamente em nome de dois moradores de Osasco, na Grande São Paulo. Um deles havia trabalhado como operador de máquinas e recebia R$ 2,7 mil. O outro tinha registros profissionais como trabalhador de manutenção e servente de obras. Para o Gaeco, os dois eram “laranjas”.
A empresa recebeu, apenas em agosto de 2023, 1,87 milhão de litros de metanol: 560.943 litros fornecidos pela GPC Química e 1.309.635 litros pela Quantiq Distribuidora. Segundo o Ministério Público, o produto não era levado à sede indicada nos documentos fiscais e seguia principalmente para postos da Grande São Paulo.
Dos R$ 25,8 milhões movimentados em pagamentos pela BK, R$ 15,4 milhões foram destinados à GPC Química e R$ 7,7 milhões à Quantiq. Mensagens reproduzidas na denúncia mostram o CNPJ da Quimicolor sendo enviado a compradores como chave Pix.
Relação com outras investigações
O Gaeco afirma que a Quimicolor integrava um núcleo comandado por Admar de Carvalho Martins, o Dema, e Everton Felipe de Barros, o Soró. A empresa não é apontada como pertencente a Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, ou a Mohamad Hussein Mourad, o Primo.
Beto Louco foi denunciado por supostamente financiar a organização por meio de empresas sob seu controle, principalmente a Aster Petróleo. Segundo o Ministério Público, a Aster enviou R$ 88 milhões à Ipê Combustível, outra empresa classificada como fictícia e usada na compra e no pagamento de metanol. Mohamad não foi denunciado nessa ação.
Freixo afirmou à PGR ter movimentado aproximadamente R$ 1,3 bilhão entre 2020 e 2025 para gerar dinheiro vivo destinado a Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. De acordo com o relato, os valores eram entregues a Vorcaro, a Fabiano Zettel ou a motoristas dos dois, em malas com quantias entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão.
Os pagamentos eram formalizados em contratos de mútuo firmados com a Entre Investimentos. Freixo disse que recebia 1% dos valores movimentados, enquanto os operadores ficavam com 4%. A documentação da delação, porém, não permite afirmar que a Quimicolor esteja entre as empresas citadas nesse acordo.
A colaboração foi assinada em 8 de agosto e encaminhada ao Supremo Tribunal Federal para homologação do ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master.



