A vingança pode oferecer uma sensação momentânea de satisfação, mas tende a prolongar o sofrimento causado por uma injustiça. Especialistas em filosofia, psicanálise e neurociência afirmam que concentrar a vida na revanche mantém a pessoa ligada ao agressor, dificulta a elaboração das perdas e pode atingir pessoas sem relação com o dano original.
Na novela “Quem Ama Cuida”, Adriana, personagem interpretada por Letícia Colin, passou seis anos presa por um crime que não cometeu. Depois de obter liberdade condicional, ela coloca em prática um plano de vingança. Na ficção, a queda dos vilões aparece como redenção. Fora dela, porém, o desejo de revanche pode transformar a injustiça no centro da existência.
Quando a busca por reparação vira obsessão
O filósofo e professor Renato Noguera afirma que a raiva diante de uma injustiça grave é uma reação humana. Para ele, buscar justiça envolve reconhecer o dano, responsabilizar quem o causou e procurar alguma forma de reparação. O problema surge quando todas as decisões passam a ser guiadas pela intenção de ferir o agressor. “Uma espécie de obsessão”, diz.
A psicanalista e escritora Maria Homem avalia que a vingança funciona como uma forma de escapar da própria dor. Em vez de enfrentar perdas relacionadas ao amor, ao casamento, à estabilidade ou à desorganização da vida, a pessoa passa a acompanhar os horários, as fraquezas e os movimentos do algoz. Esse foco produz uma sensação provisória de propósito, enquanto abandonar o plano obrigaria a encarar o vazio e o sofrimento.
Para Noguera, o prazer obtido com a revanche não devolve aquilo que foi perdido. Amparado na filosofia dos afetos de Baruch Espinoza, ele afirma: “A dor do outro não pode ser fiadora permanente da nossa alegria.”
O cérebro e o impulso de retaliar
Uma pesquisa da Escola de Medicina de Yale, de 2025, indica que a percepção de humilhação ou injustiça ativa a rede primária da dor, especialmente o córtex insular anterior. A imaginação de causar sofrimento de volta ao agressor também aciona circuitos ligados ao prazer, à recompensa e à dopamina.
James Kimmel, professor de psiquiatria, fundador do Centro de Estudos de Controle de Motivação de Yale e autor de “The Science of Revenge”, compara esse mecanismo ao observado na dependência química. O ressentimento pode reduzir a capacidade de se concentrar no presente. A neurociência aponta a necessidade de reativar o córtex pré-frontal executivo, ligado ao autocontrole, às decisões e à avaliação de efeitos de longo prazo.
Um estudo da Virginia Commonwealth University, de 2021, com 1.500 voluntários, mostrou que 58% preferem retaliar imediatamente. De acordo com o professor David Chester, a vingança planejada e demorada costuma aparecer após provocações e ofensas graves que acumulam rancor.
O luto e a reconstrução
Maria Homem afirma que a Justiça mediada e o Estado foram criados para substituir a punição pessoal e interromper ciclos de violência. Quando a confiança nessas instituições diminui, as pessoas podem recorrer novamente à vingança individual e à lógica do “olho por olho”.
Para romper esse ciclo, ela aponta dois processos de luto: aceitar a perda de algo positivo ou idealizado e se desapegar do agressor, deixando de ocupar apenas a posição de vítima. Noguera recomenda reconhecer a dor e a raiva sem transformá-las em ordens de ação. Esses sentimentos, segundo ele, podem indicar o que foi violado, quais medidas de proteção são necessárias e que tipo de reparação pode ser buscado.
A conclusão dos especialistas é que a injustiça pode exigir resposta, mas não deve definir toda a vida de quem sofreu. A superação depende de abrir espaço para uma existência que não tenha a revanche como único objetivo.



