SÃO PAULO — O sistema financeiro identificou mais de 870 mil indícios de contas laranja no primeiro semestre deste ano, segundo dados da Quod. O volume representa cerca de 88% dos mais de 990 mil registros feitos durante todo o ano de 2025.
A empresa especializada em inteligência de dados para o mercado de crédito reuniu as informações a partir do Rufra, base compartilhada de dados sobre fraudes gerenciada pela própria Quod. O levantamento também apontou 314.729 documentos fraudulentos associados a contas usadas para aplicar fraudes em diferentes bancos.
Danilo Coelho, diretor de produtos e dados da Quod, afirma que a abertura de contas digitais em larga escala contribuiu para ampliar o universo de contas que precisam ser monitoradas. A identificação é complexa porque uma conta pode ser aberta regularmente, com dados verdadeiros, e só depois passar a ser usada de forma ilícita.
Os sinais de irregularidade podem aparecer quando a movimentação financeira deixa de ser compatível com o perfil do titular. Entre os exemplos estão valores muito acima da renda comprovada ou transações realizadas em velocidade considerada incompatível pelos sistemas antifraude.
“Existem alguns motivos que explicam esse número. Por exemplo, a digitalização em massa da população tem facilitado a abertura de contas digitais, o que não era uma realidade alguns anos atrás”, diz Coelho.
Perfil dos registros
São Paulo concentrou 33,6% dos casos, seguido por Rio de Janeiro, com 14,4%, e Minas Gerais, com 6,5%.
Entre os documentos associados aos indícios, 62,2% pertenciam a pessoas de 18 a 34 anos. A faixa de 35 a 49 anos representou 25,6%, enquanto pessoas de 50 a 64 anos corresponderam a 9,1%.
Quase seis em cada dez pessoas relacionadas aos registros tinham renda de até dois salários mínimos. Os homens representaram 59% dos casos.
As instituições financeiras compartilham informações sobre indícios de fraude para reforçar seus controles. A análise pode incluir dados sobre renda, patrimônio, financiamentos, estado civil, endereço e número de filhos, usados na avaliação do risco de uma transação. O mercado também utiliza inteligência artificial e modelos preditivos para identificar padrões de comportamento e antecipar mudanças na atuação dos fraudadores.
Diferença entre conta laranja e conta fria
Contas laranja, também chamadas de contas de passagem, são abertas regularmente e depois usadas para movimentar recursos ligados a fraudes, golpes, ataques cibernéticos ou outras atividades ilegais. Nesse tipo de caso, o titular permite o uso por terceiros ao ceder, emprestar, alugar ou vender o acesso.
A conta fria, por outro lado, é aberta de forma fraudulenta sem o conhecimento da pessoa em cujo nome foi registrada.
Quem cede uma conta pode ter contas e recursos bloqueados, além de contrair dívidas em seu próprio nome. O titular também pode ser responsabilizado pela participação nos crimes cometidos.
Para evitar contas frias abertas com dados roubados, a recomendação é não acessar links desconhecidos recebidos por e-mail, SMS ou WhatsApp e desconfiar de ligações com tom de urgência ou medo. Em caso de dúvida, a orientação é desligar a chamada e procurar diretamente a instituição financeira para confirmar a informação.



