São Paulo, Terça-feira, 22 de setembro de 2026
Dólar R$ 5,11 · Euro R$ 5,86 · Ibovespa 186.596 -0,00%
A economia explicada todos os dias
Economia

Crédito pode perder força e pesar sobre a economia brasileira em 2027

Juros, endividamento e inadimplência elevados devem reduzir o ritmo das concessões, mas bancos não projetam um choque no mercado de crédito.

Crédito pode perder força e pesar sobre a economia brasileira em 2027

Analistas econômicos avaliam que uma desaceleração mais intensa do crédito pode se tornar um dos principais fatores de perda de ritmo da economia brasileira em 2027. O movimento seria influenciado pelo alto nível de juros, pela inadimplência e pelo endividamento de famílias e empresas.

Pelo lado da oferta, a expectativa é de esgotamento dos recursos destinados a programas estatais de incentivo ao crédito. Também estão no radar medidas do Banco Central para reduzir concessões em linhas consideradas de maior risco.

Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, afirma que os números dos empréstimos já se aproximam dos níveis observados em períodos anteriores de desaceleração mais forte, como a recessão de 2014-2016. A gestora projeta crescimento do PIB de 1,9% neste ano e de 1,3% no próximo. Em um cenário alternativo, uma contração de 10% nas operações de crédito reduziria em até 0,7 ponto percentual o crescimento da economia em 2027.

“Se isso acontecer, podemos entrar em um ciclo de desaceleração forte [do PIB]. E não estamos longe disso”, afirma Funchal.

Projeções dos bancos

Uma pesquisa da Febraban com instituições financeiras indica expectativa de expansão da carteira de crédito de 8,9% neste ano e de 7,5% em 2027. A maior parte dos bancos consultados prevê uma desaceleração gradual, apoiada pelos dados ainda positivos do mercado de trabalho e pelos programas de estímulo do governo.

Apesar disso, aumentou de 5% para 20% o percentual das instituições que esperam uma perda de ritmo mais pronunciada até o fim deste ano. Entre os fatores citados estão o comprometimento elevado da renda das famílias, a inadimplência e o fim dos recursos estatais para linhas adicionais.

Luiz Fernando Castelli, gerente de Assuntos Econômicos da Febraban, afirma que o crescimento real projetado para a carteira de crédito continua acima do desempenho esperado para o PIB do próximo ano. Para ele, os dados não indicam um choque muito forte no mercado de crédito.

“Há uma expectativa de desaceleração ordenada da economia e do mercado de crédito, nada muito brusco que gere impactos muito fortes do ponto de vista econômico”, afirma Castelli.

Endividamento e consumo

Dados do Banco Central mostram que a inadimplência da carteira de crédito com recursos livres chegou a 4,2% entre empresas, o maior nível desde 2018. Entre pessoas físicas, o índice atingiu 7,8%, recorde da série mencionada. O endividamento das famílias equivale a 49,8% da renda anual, enquanto o comprometimento com prestações está em 28,9%.

Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV Ibre e analista da BRCG Consultoria, afirma que o nível de endividamento deve provocar uma perda significativa de ritmo do consumo em 2027. Ela, porém, não prevê um choque de crédito.

Os dados do PIB do segundo trimestre já mostraram queda no consumo das famílias, em um resultado que surpreendeu o mercado e refletiu os efeitos dos juros elevados sobre a economia. Hennings compara o quadro atual ao período anterior à recessão de 2014-2016, quando o endividamento elevado contribuiu para retardar a retomada da atividade nos anos seguintes.

A pesquisadora também afirma que o Novo Desenrola Brasil não deve alterar a dinâmica do endividamento familiar. “O excesso de alavancagem, tanto das pessoas físicas quanto das empresas, tende a tornar a desaceleração da economia mais longa e mais profunda”, diz.

Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da FGV, avalia que o aumento da percepção de risco dos bancos em relação aos tomadores de crédito é típico de ciclos de desaceleração. Ele não identifica uma situação generalizada de inadimplência nem uma quebradeira de empresas, embora reconheça o aumento dos casos de recuperação judicial.

Oliveira afirma que o mercado de trabalho continua gerando renda, mas que uma parcela relevante está comprometida com dívidas. Para ele, esse cenário reduz o fluxo de crédito, enquanto o mercado de trabalho aquecido e os estímulos fiscais do governo limitam uma contração maior.

Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, considera preocupante o cenário para o próximo ano e afirma que a perda de ritmo da atividade será ampliada pela desaceleração do crédito.

O Banco Central recomendou cautela aos agentes do mercado de crédito e informou que prepara medidas para reduzir os riscos associados ao endividamento das famílias em nível historicamente alto e ao comprometimento de renda no maior nível da série histórica.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.