SÃO PAULO — A continuidade do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) pode depender do resultado das eleições deste ano. Um ano depois de Luiz Inácio Lula da Silva anunciar um investimento de US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões), o mecanismo é citado apenas pelo próprio presidente entre as prioridades de um eventual quarto mandato.
A avaliação de Taciana Stec, especialista em políticas climáticas no Instituto Talanoa, é que o fundo ainda não tem uma estrutura de governança capaz de atravessar mudanças na política ambiental brasileira. “Existe um risco grande de o TFFF não ter continuidade em caso de uma transição de governo”, afirmou.
Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na eleição, não apresenta uma posição específica sobre o TFFF. A campanha diz que o candidato defende mecanismos de incentivo econômico à preservação, com ampliação do pagamento por serviços ambientais e remuneração a produtores, comunidades e proprietários rurais que conservem a vegetação nativa, recuperem áreas degradadas e protejam recursos hídricos. Não houve resposta a um questionamento específico sobre o fundo.
Meta de captação
Lula oficializou o aporte brasileiro em 23 de setembro do ano passado, durante a Assembleia-Geral da ONU. O Brasil foi o primeiro investidor do mecanismo, idealizado para captar US$ 25 bilhões (R$ 127 bilhões) em recursos públicos e US$ 100 bilhões (R$ 511 bilhões) de fontes variadas, inclusive particulares. O total previsto é de US$ 125 bilhões (R$ 638 bilhões).
Os recursos seriam aplicados em uma carteira diversificada de investimentos de renda fixa, com rendimento estimado entre 7% e 8% ao ano. Os financiadores receberiam cerca de 4% dos rendimentos, e outros 4% seriam destinados aos países que preservarem suas florestas. O fundo pagaria US$ 4 (R$ 20,50) por hectare conservado, com redução do valor em caso de desmatamento ou degradação provocada por fogo.
O aporte brasileiro, de R$ 5 bilhões, está previsto no Projeto de Lei Orçamentária de 2027 apresentado ao Congresso Nacional. A verba ainda precisa ser aprovada e deve ser repassada por meio do Fundo Clima.
Até agora, os investimentos anunciados somam US$ 7,3 bilhões (R$ 37,3 bilhões). O TFFF precisa alcançar US$ 10 bilhões (R$ 51,1 bilhões) até o final deste ano para começar a funcionar e manter o aporte da Noruega. “Se não alcançar a meta, o TFFF corre grande risco de desidratar no ano que vem”, disse Stec.
Aportes e desmatamento
Há conversas sobre novos investimentos com Dinamarca, Bélgica, Suécia, Suíça, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Japão, China e países do golfo Pérsico. Um representante da gestão Lula afirmou que possíveis anúncios devem ocorrer na COP31, conferência do clima da ONU prevista para a Turquia em novembro, quando o próximo presidente do Brasil já será conhecido.
O mesmo representante disse que uma eventual troca de governo pode alterar o engajamento brasileiro com o fundo, embora tenha afirmado que a responsabilidade pelo mecanismo é mundial, e não apenas do Brasil.
Durante o governo Jair Bolsonaro (PL), o desmatamento da amazônia chegou a 13 mil km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021, o maior nível desde 2006, segundo o sistema Prodes, do Inpe. De agosto de 2024 a julho de 2025, foram desmatados 5.796 km2, o terceiro menor patamar da série histórica iniciada em 1988.
Se a devastação voltar a crescer nos próximos quatro anos, o Brasil poderá se tornar menos competitivo no TFFF. O fundo foi apresentado na COP28, em novembro de 2023, antes do início da guerra entre os EUA e o Irã. Para o representante do governo, o cenário geopolítico atual reduziu as condições para a iniciativa, em razão da prioridade dada pelos países a investimentos em defesa militar.



