RIO DE JANEIRO — A confirmação de petróleo na bacia da Foz do Amazonas colocou o Brasil no radar de grandes petroleiras globais. O interesse é impulsionado pela qualidade do óleo, pela distância de áreas de conflito e pela estabilidade política e regulatória do país. Em contrapartida, empresas apontam incertezas sobre impostos e licenças ambientais como obstáculos para novos investimentos.
O tema dominou o maior evento brasileiro do setor, que reuniu 83 mil visitantes e representantes de 77 países. A edição foi considerada a mais internacional em mais de 40 anos, com participação de executivos de grandes companhias.
A portuguesa Galp afirmou que busca novos ativos no Brasil. A ExxonMobil declarou interesse em participar de uma nova etapa da indústria de petróleo no país, enquanto a Chevron destacou o início da exploração na Foz do Amazonas.
Pesquisa na Foz do Amazonas
Chevron e ExxonMobil são clientes do consórcio que iniciou nesta semana uma pesquisa sísmica em blocos da região. Esse levantamento é usado para indicar se e onde poços pioneiros poderão ser perfurados. As duas empresas são as maiores operadoras privadas da bacia.
A pesquisa ocorre a cerca de 130 quilômetros da descoberta da Petrobras, ainda em fase de avaliação. A estatal não concluiu o poço e espera terminar o trabalho até o início de outubro. Antes de alcançar o objetivo final, encontrou petróleo de boa qualidade em um reservatório mais raso.
A expectativa da Petrobras é encontrar reservatórios menores que os do pré-sal, mas com dimensões parecidas às da bacia de Campos. A região já chegou a produzir quase 2 milhões de barris de petróleo e gás, o equivalente a um terço da produção brasileira atual.
Na Foz do Amazonas, os reservatórios têm espessura abaixo de 100 metros, enquanto os do pré-sal podem alcançar 500 metros. O poço Morpho, o primeiro da Petrobras na região, está em uma lâmina d’água de quase 3.000 metros.
A força das correntes locais também representa um desafio. No início do ano, um vazamento provocou a interrupção da perfuração. Ainda existem dúvidas sobre o volume de petróleo e sobre a quantidade de gás e CO₂ nos reservatórios.
Regulação e licenciamento
Executivos afirmam que a previsibilidade brasileira ajuda a atrair empresas. “O Brasil sempre foi visto como um porto seguro”, disse Nuno Bastos, vice-presidente de Exploração e Produção da Galp.
A companhia possui ativos na margem equatorial, na bacia de Barreirinhas, mas ainda não tem planos de exploração nesses blocos, operados pela Shell. Bastos afirmou que a empresa continua avaliando a região e pode ampliar sua participação.
Ao mesmo tempo, o setor critica a taxa de exportação de petróleo imposta neste ano. A medida foi justificada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela necessidade de levantar recursos para subsídios aos combustíveis após o início da guerra no Irã.
O licenciamento ambiental foi citado como outro entrave. O bloco da primeira descoberta da Petrobras na Foz do Amazonas foi licitado em 2013, mas a licença para o primeiro poço só foi concedida em 2025.
A britânica BP, que operava a área inicialmente, transferiu o projeto para a Petrobras. A francesa Total devolveu à ANP concessões que possuía na região. Para Olivier Bahabanian, diretor de Exploração e Produção da TotalEnergies no Brasil, esperar “dois, três, quatro anos” sem garantia de licença não é compatível com a atividade de exploração.
Executivos também avaliam que conflitos em outras regiões podem aumentar a procura pelo petróleo brasileiro, que já aparece como alternativa de fornecimento para mercados da Europa e da Ásia. O país, porém, disputa investimentos com novas fronteiras exploratórias na América do Sul e na África.



