LONDRES — Fazer um testamento ainda jovem pode ajudar a organizar não apenas a distribuição de bens, mas também o pagamento de contas e dívidas, a escolha de responsáveis por animais de estimação e instruções para o funeral. Erin Atkinson, de 27 anos, decidiu registrar essas vontades mesmo sem se considerar rica.
Pesquisadora de psicologia em uma universidade de Londres, Erin se mudou de Bristol para a capital da Inglaterra há quatro anos. Ela vive de aluguel e não revela quanto ganha. Ainda assim, definiu que seu carro, avaliado em £ 7 mil (cerca de R$ 48 mil), ficará com a irmã. Um colar de ouro recebido do parceiro voltará para ele, e parte de seu dinheiro será destinada a uma instituição de caridade voltada à endometriose.
“Foi muito empoderador poder deixar isso registrado”, afirma Erin.
O que o documento pode organizar
A decisão foi influenciada pela experiência da família e pela história de uma prima de Sophia Maslin, fundadora da Morby, site que permite criar testamentos online. A prima morreu jovem sem deixar o documento, o que complicou a situação para os familiares. Erin também observou como o testamento da avó ajudou a orientar uma família grande.
Para ela, o processo revelou que possuía mais ativos financeiros do que imaginava. Além dos bens materiais, o documento registra preferências pessoais: um poema para ser lido no funeral e a bebida que gostaria que fosse servida.
Eleanor Hodgson, da Crombie Wilkinson Solicitors, afirma que o testamento também pode indicar quem terá autorização para lidar legalmente com contas bancárias e dívidas depois da morte. Sem essa definição, os familiares podem enfrentar obstáculos para administrar essas questões.
Maslin diz que muitos jovens adiam o documento por acreditar que ele só é necessário quando se tem mais idade ou patrimônio. “A realidade é que acontecimentos inesperados podem ocorrer em qualquer fase da vida”, afirma.
No Reino Unido, o National Wills Report de 2025 apontou que um em cada cinco jovens de 18 a 24 anos tem testamento. A proporção chega a 33% entre pessoas de 22 a 34 anos e a 56% entre aquelas com mais de 55 anos.
Regras e etapas
No Brasil, pessoas maiores de 16 anos, em plena capacidade e aptas a expressar sua vontade, podem fazer um testamento. O testamento público, considerado a modalidade mais formal e segura, deve ser registrado em cartório de notas na presença de duas testemunhas.
Há alternativas gratuitas ou mais baratas. Advogados podem prestar o serviço de forma voluntária, sem cobrar honorários, e membros de sindicatos podem ter acesso a serviços gratuitos de elaboração de testamentos. No Reino Unido, a campanha Will Aid é realizada anualmente em novembro.
Ao preparar o documento, é possível escolher beneficiários entre familiares, amigos e instituições de caridade. Pessoas com filhos menores de 18 anos também podem nomear responsáveis por eles. Outra etapa é indicar um executor, que ficará encarregado de garantir o cumprimento das decisões, e verificar se haverá cobrança de honorários.
O testamento pode ainda definir quem cuidará de animais de estimação e incluir preferências para o funeral, como sepultamento ou cremação, músicas, leituras e flores. Depois de pronto, deve ser guardado em local seguro, e alguém de confiança precisa saber onde encontrá-lo. A falta do documento pode atrasar o cumprimento das vontades registradas.



