SÃO PAULO — Entidades do comércio, dos shoppings, da construção imobiliária e dos restaurantes receberam de forma favorável o pacote anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra as apostas online nesta sexta-feira (25). As manifestações relacionaram as bets à redução da renda disponível das famílias e ao aumento do endividamento, mas parte das organizações considerou a decisão tardia e motivada por interesses eleitorais.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) afirmou que já vinha alertando para os efeitos econômicos e sociais da expansão das plataformas de apostas virtuais. Para a entidade, restringir essa atividade pode ajudar a conter o avanço da inadimplência e melhorar a situação financeira das famílias.
A CNC ponderou, porém, que interromper as operações não basta para recuperar a capacidade de consumo da população, que continua pressionada pelos juros altos. Na avaliação da confederação, a redução do dinheiro destinado às apostas pode liberar recursos para o pagamento de dívidas, despesas essenciais e compras de bens e serviços.
A Abrasce, associação de shoppings, também demonstrou preocupação com o impacto das apostas sobre os orçamentos domésticos, sobretudo entre pessoas em dificuldade financeira. A entidade afirmou que a proteção dos consumidores deve orientar as decisões e que continuará acompanhando as medidas propostas.
Efeitos sobre a moradia e o consumo
A Abrainc, associação de incorporadoras imobiliárias, defendeu ações para proteger os consumidores e preservar sua capacidade de formar patrimônio. Estudo citado pela entidade estima que o endividamento de pessoas que apostam em bets é 8,7 pontos percentuais maior do que o de quem não aposta.
De acordo com a associação, o comprometimento maior da renda dificulta a obtenção de financiamento e a compra da casa própria. A estimativa é que cerca de 3,45 milhões de famílias possam perder acesso potencial à moradia por esse efeito, principalmente as de menor renda. O comunicado foi assinado por Luiz França, presidente da Abrainc.
Sandra Takata, presidente do Instituto Mulheres do Varejo, disse que as apostas também atraíram mulheres que buscavam renda extra. Segundo ela, gestores de recursos humanos relataram casos de trabalhadores que pediram demissão para levantar dinheiro e quitar dívidas relacionadas às bets.
Takata afirmou que a transferência da renda familiar para as apostas reduz a capacidade de compra de alimentos, roupas e itens básicos, com reflexos no varejo e dentro das empresas. Para ela, proteger a renda das famílias significa preservar o consumo e a economia real.
Críticas ao momento da decisão
A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) disse que não discute o mérito da medida, mas questionou a condução do governo. Alfredo Cotait Neto, líder do Sistema do Associativismo, que reúne a CACB, a Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo e a Associação Comercial de São Paulo, afirmou: "O Sistema do Associativismo não discute o mérito da decisão. O que questionamos é quem vai pagar por ela".
Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, classificou a medida como tardia e eleitoreira. Ele afirmou que a entidade defende há algum tempo restrições à publicidade das bets, comparáveis às aplicadas a produtos nocivos à saúde, como cigarros. Solmucci também disse que uma limitação abrupta gera insegurança para quem empreende no país.
A CNC, por sua vez, declarou que "a contenção dessa atividade é uma medida necessária para mitigar o agravamento da inadimplência". A entidade ressaltou que a recomposição das finanças familiares depende também das condições que afetam o consumo.



