SÃO FÉLIX DO XINGU (PA) — Áudios enviados a indígenas relatam que fazendeiros pretendem invadir a terra indígena Apyterewa, no Pará, caso Flávio Bolsonaro (PL) vença as eleições de 2026. As mensagens citam o dia 25, data do segundo turno, como o momento previsto para a entrada na área protegida.
O território é habitado pelos parakanãs, povo de recente contato com não indígenas. As mensagens, encaminhadas por moradores da região a indígenas nos últimos dias, afirmam que os fazendeiros aguardariam o resultado da eleição para construir fazendas dentro da terra indígena. Também mencionam a expectativa de que Flávio e o governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), retirem o território dos parakanãs e o repassem a pecuaristas.
Oito áudios foram analisados. Por razões de segurança, a transcrição e a identidade dos envolvidos não foram divulgadas. Os metadados de origem foram cruzados com bancos de dados, e investigadores confirmaram a ligação dos arquivos com endereços nos arredores da Apyterewa. O material é conhecido pelos órgãos de inteligência do governo federal.
A Polícia Federal, o Ibama, a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas monitoram o caso. As ameaças foram discutidas em reunião do Comitê de Desintrusão do governo Lula na última quinta-feira. O Ministério informou que acompanha o aumento da pressão para a ocupação ilegal e que houve deliberação para reforçar a segurança e ampliar o efetivo mobilizado.
O Ibama afirmou que também há evidências de mobilização em outras regiões da Amazônia, em terras indígenas e outras áreas protegidas, para a retomada de atividades de garimpo ilegal. Um agente da Polícia Federal, sob anonimato, classificou como sólidas e preocupantes as informações de inteligência sobre as ameaças aos parakanãs.
Histórico da Apyterewa
Dados do Inpe mostram que o desmatamento na área passou de 18,9 km² em 2018 para 85,3 km² em 2019. O recorde ocorreu em 2022, com 102, 2 km² destruídos. Em 2023, o número caiu para 20,6 km².
A terra indígena foi homologada em 2007, fica em São Félix do Xingu (PA), ocupa 773 mil hectares e abriga mais de mil parakanãs. A área foi incluída na ADPF 709. Em 2020, Luís Roberto Barroso determinou que o governo federal expulsasse invasores de áreas indígenas.
A desintrusão começou em 2023 e foi acompanhada por reações violentas de fazendeiros. Pontes foram derrubadas para impedir a passagem de agentes. Um servidor da Funai foi baleado no final de 2023, e um contratado do Ibama foi morto em 2025.
Nas últimas semanas, investigadores suspeitaram de queimadas propositais na região. Dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu indicam que os focos de incêndio passaram de 41 em julho para 626 em agosto e 1.007 no mês passado.
As mensagens recebidas pelas lideranças relatam aumento na circulação de motos e caminhonetes e a compra de lonas e materiais de roça. Os indígenas são orientados a evitar locais onde pecuaristas preparam o solo para pastagens e plantações. A campanha de Flávio e o governo estadual do Pará foram procurados, mas não se posicionaram; Dr. Daniel informou, por sua assessoria, que não comentaria.



