A ascensão de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais é atribuída por cientistas políticos ao desgaste da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. O escritor chegou ao terceiro lugar nas últimas duas semanas e marcou 8% das intenções de voto no Datafolha mais recente.
Cury passou a ocupar o principal espaço fora da disputa entre o presidente e o senador. Para os especialistas ouvidos, porém, o crescimento pode ser passageiro. O candidato acumulou visibilidade e capital social como figura pública, mas ainda não demonstrou ter capital político ou experiência de negociação.
Um voto de rejeição aos polos
Emerson Cervi, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná, compara o movimento ao de Silvio Santos, que lançou candidatura duas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial de 1989 e surpreendeu nas pesquisas. Segundo Cervi, candidaturas desse tipo tendem a crescer rapidamente no começo, mas enfrentam dificuldades quando a disputa se intensifica.
Silvana Krause, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, relaciona o fenômeno a uma tradição de candidatos que se apresentam como estranhos à política. Ela cita Jânio Quadros e Jair Bolsonaro em 2018 como precedentes.
Cury se apresenta como candidato de centro e defensor da pacificação do país. Também afirma que o Brasil está “sequestrado” pelas famílias de Lula e Bolsonaro e que “não precisa do poder”. Para Krause, seu apelo combina a rejeição aos dois polos com um antipartidarismo mais antigo no eleitorado brasileiro.
Hilton Fernandes, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, avalia que a alta decorre principalmente do surgimento repentino de uma opção nova em uma campanha que parecia apática. A rejeição a Lula e Flávio Bolsonaro criaria um limite para os dois líderes e abriria espaço para um nome diferente.
Esse eleitorado, segundo Fernandes, é volátil por não ter lastro ideológico nem histórico de campanhas anteriores. O apoio pode crescer até o fim da eleição ou diminuir rapidamente com um chamado ao voto útil.
De onde vêm os votos
As pesquisas indicam que Cury recebe principalmente eleitores que antes declaravam voto em Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, além de uma parcela de indecisos. A migração direta de Lula ou Flávio Bolsonaro ainda seria pequena, segundo Cervi.
Cláudio Gonçalves Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, afirma que Caiado é o candidato que mais perde eleitores para Cury, seguido por uma perda menor vinda de Flávio Bolsonaro. O eleitorado de Lula permanece praticamente intacto, na avaliação do professor.
Couto aponta o debate promovido pela Band em 23 de agosto como um ponto de inflexão. Lula, Flávio Bolsonaro e Zema não participaram do evento. Cury ameaçou deixar o debate em protesto, mas voltou atrás. Durante a discussão, reagiu ao tom de Renan Santos, que havia usado termos pejorativos para se referir aos dois líderes ausentes.
A cena foi replicada na internet e, segundo Couto, reforçou a imagem de Cury como uma voz contrária à agressividade da polarização. O candidato atribuiu sua ascensão a um “movimento de pacificação” espontâneo.
Entre 16 e 29 de agosto, Cury ganhou cerca de 2,5 milhões de seguidores no Instagram, conforme levantamento do Instituto Democracia em Xeque. Campanhas rivais levantaram suspeitas de pagamentos a influenciadores, negadas pela equipe do candidato.
Falta de propostas detalhadas
Cervi classifica o fenômeno como antipolítico porque o discurso de Cury se concentra em marcar distância do que está estabelecido, sem detalhar políticas públicas.
Em sabatina na TV Globo, o candidato defendeu taxar as apostas esportivas em mais de 50% e reduzir o número de ministérios. Ele não especificou quais pastas seriam extintas nem como pretende equilibrar as contas públicas. Também viralizaram nas redes propostas como o uso de drones no combate ao feminicídio e a criação de um ministério de inteligência artificial.
Para Gonçalves Couto, a falta de clareza sobre o programa é o principal obstáculo à continuidade do crescimento. Cury precisa deixar de se definir apenas pelo que rejeita e apresentar com precisão o que pretende fazer, avaliação compartilhada pelos especialistas.



