Para o historiador Jones Manoel (PSOL), a esquerda precisa apresentar respostas para problemas econômicos concretos se quiser se aproximar dos jovens. Ele afirma que 90 milhões de brasileiros estão endividados e que a taxa de juros está nas alturas. Na avaliação dele, não basta destacar indicadores de emprego sem discutir a qualidade das ocupações e as expectativas de futuro.
Jones, candidato a deputado federal em Pernambuco, também critica a forma como partidos progressistas tentam dialogar com a juventude. Segundo ele, a esquerda brasileira entrou tarde nas redes sociais e, quando tenta adotar uma linguagem mais informal, pode parecer artificial. A dificuldade, porém, seria política: faltam propostas capazes de responder à ausência de estabilidade financeira, moradia e empregos compatíveis com a formação dos jovens.
Ele cita a própria trajetória. Filho de uma empregada doméstica e de um pedreiro, Jones começou sua militância política 15 anos atrás e abriu um canal no YouTube. A partir dos vídeos, transformou temas de debate em livro e ganhou visibilidade depois de uma entrevista para a Mídia Ninja, a convite de Caetano Veloso. O historiador afirma que esse percurso ocorreu fora da estrutura partidária e sem a aprovação de um cacique.
Para Jones, a internet tem caráter descentralizador e permite que pessoas sem tradição política influenciem disputas e alcancem centenas ou milhares de pessoas. Ele diz que essa característica entra em tensão com partidos controlados por grupos familiares. Em Pernambuco, cita sobrenomes como Mendonça, Ferreira, Coelho, Lira, Campos e Arraes.
Redes sociais e disputa política
O historiador aponta três fatores para o maior engajamento da direita. O primeiro seria o funcionamento das plataformas digitais, que, segundo ele, privilegiam conteúdos de extrema direita. O segundo é a entrada antecipada da direita e da extrema direita nas redes. Ele lembra que, em 2012, já havia estudantes falando sobre Olavo de Carvalho, o Instituto Mises e o Instituto Liberal. O primeiro canal marxista de sucesso no YouTube, afirma, foi o de Sabrina Fernandes, de 2017, após o golpe contra Dilma Rousseff.
O terceiro fator seria a expansão da internet no Brasil durante um período em que o PT estava havia muito tempo no governo. Na leitura de Jones, o partido passou a ser identificado com o sistema, favorecendo a formação de um ecossistema contrário ao establishment.
Entre os comunicadores de esquerda, ele elogia Erika Hilton e Sâmia Bomfim. Na direita, destaca Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro. Sobre Ferreira, afirma que ele consegue deslocar debates desfavoráveis à direita para temas aleatórios. Também avalia positivamente um vídeo de Michelle contra a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará.
Trabalho, futuro e alternativas
Jones diz ter 36 anos, não possuir casa própria nem carro e estar fazendo doutorado, com baixas expectativas de empregabilidade compatíveis com seu nível de formação. Para ele, sua geração cresceu esperando emprego melhor, moradia, carro e dinheiro para viajar, mas essas expectativas não se realizaram.
Ele afirma que a esquerda costuma apresentar realizações passadas, como Luz para Todos, cisternas, Fies e ProUni, sem formular uma mensagem de futuro. Enquanto isso, a extrema direita oferece, na avaliação dele, uma resposta baseada em privatizações, desregulamentação e redução de direitos trabalhistas.
O historiador defende uma lei de teto de juros como proposta de apelo imediato para famílias trabalhadoras. Também cita Zohran Mamdani, nos Estados Unidos, como exemplo de político que combinou críticas ao capitalismo com propostas universais, como creche pública, controle dos aluguéis e mercados estatais.
Sobre Luiz Inácio Lula da Silva, Jones diz que votará no presidente por considerá-lo o candidato mais competitivo para derrotar Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, afirma que Lula não entregou reformas estruturais. O historiador espera que uma candidatura presidencial marxista competitiva surja em 2030 e diz que gostaria de ser esse candidato.



