NOVA YORK — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania dos países, a não interferência em assuntos internos e o fortalecimento do multilateralismo durante o discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU. O encontro reúne líderes dos 193 países-membros das Nações Unidas e tem como tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
Lula afirmou que o Brasil não pretende transferir a outros países a responsabilidade pelo combate ao crime organizado. Ele citou os impactos das facções sobre trabalhadores, famílias e policiais e disse que o enfrentamento deve envolver cooperação para interromper o fluxo de armas e dinheiro destinado às organizações criminosas.
O presidente também mencionou uma proposta apresentada pessoalmente a Donald Trump para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. A declaração ocorre em meio aos embates com os Estados Unidos sobre a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas internacionais.
Tecnologia, bets e PIX
Na área digital, Lula criticou empresas de tecnologia que operam sem regras e transparência e defendeu a regulação das big techs e da inteligência artificial. Segundo ele, essas empresas transferem às famílias a responsabilidade de lidar com os efeitos dos algoritmos e dos produtos oferecidos.
O presidente voltou a condenar a indústria das bets, que, em sua avaliação, transforma o vício em lucro, aumenta o endividamento e destrói famílias. Ele também defendeu o PIX como uma infraestrutura pública e gratuita de pagamentos e disse que o Brasil não deve ceder a pressões de multinacionais interessadas em privatizá-lo.
Lula afirmou ainda que a ONU atravessa seu momento mais crítico desde que ocupou a tribuna pela primeira vez, em 2003. Para ele, a organização falha ao tentar impedir guerras e perdeu credibilidade. O presidente também criticou o imobilismo do Conselho de Segurança e voltou a defender sua reforma.
Tarifaço e escala de trabalho
Ao abordar a economia, Lula criticou o tarifaço aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Ele afirmou que o Brasil é o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto e que deve alcançar um novo recorde de exportações neste ano, apesar das tarifas.
O presidente também defendeu o fim da escala 6x1. A proposta, segundo ele, permitiria ao trabalhador ter 2 dias livres por semana para descansar, estudar e conviver com a família, além de reduzir a sobrecarga doméstica que recai sobre as mulheres.
No trecho final do pronunciamento, Lula falou sobre o processo eleitoral brasileiro. Disse que, no dia 4 de outubro, os eleitores escolherão entre democracia e negacionismo e afirmou que o país não aceitará interferências externas na escolha do próximo governante.
Sem citar Flávio Bolsonaro, apontado no discurso como adversário nas urnas, Lula criticou candidatos que usam a liberdade de expressão para se associar a interesses estrangeiros. Também defendeu as urnas eletrônicas e disse que o sistema eleitoral brasileiro é moderno e robusto diante dos desafios das redes de desinformação.



