O economista francês Thomas Piketty afirma que o Brasil tem um papel central na tentativa de reformar o sistema econômico e monetário internacional. Para ele, o país pode articular uma agenda de tributação dos bilionários, redução das desigualdades e financiamento de investimentos climáticos.
Piketty diz que seria prejudicial ao Brasil e ao mundo se o país adotasse uma direção nacionalista alinhada ao trumpismo. “Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional”, afirmou.
A avaliação ocorre após o Brasil incluir, durante a reunião do G20 em 2024, uma menção à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da cúpula. A proposta enfrentou resistência da Argentina. Nas negociações seguintes, a diplomacia brasileira continuou defendendo um sistema tributário internacional no âmbito da Organização das Nações Unidas.
Propostas para a economia global
Piketty liderou, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, uma equipe de cerca de 50 pessoas responsável pelo Relatório de Justiça Global. O estudo propõe a criação de uma moeda internacional administrada pela ONU, em substituição ao dólar, além de políticas para elevar a renda per capita global a 5 mil euros até 2100.
O relatório também sugere que a média internacional de horas trabalhadas caia para menos da metade até aquele ano. A mudança envolveria a transferência de funções ligadas à produção de alimentos para as áreas de educação e saúde. Entre as medidas defendidas está ainda a criação de um imposto global sobre a riqueza, especialmente sobre as fortunas dos bilionários.
Na avaliação do economista, um grupo de países poderá avançar conjuntamente na tributação dos super-ricos e na criação de um novo sistema monetário. Ele defende uma moeda baseada em uma cesta de moedas dos Estados Unidos, da China, da Índia, do Brasil e de outros países.
Piketty também propõe reformas na ONU, no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial. Como um acordo amplo não seria viável de imediato, ele sugere a formação de uma “coalizão incompleta”, reunindo países dispostos a avançar em temas específicos.
Disputa sobre o sistema monetário
O economista afirma que a participação dos Estados Unidos na economia mundial vem diminuindo e que isso limita a permanência do dólar como moeda internacional. Segundo ele, o atual sistema contribui para a valorização da moeda americana e para o déficit comercial dos Estados Unidos.
No FMI, um país que reúne 15% dos direitos de voto pode bloquear decisões importantes, como a criação de direitos especiais de saque. Piketty afirma que os Estados Unidos detêm essa parcela, mas podem cair para perto de 10% nos próximos 10 ou 20 anos, o que alteraria a estrutura de poder do fundo.
Ele também defende que as decisões de uma convenção da ONU sobre tributação internacional sejam tomadas por maioria qualificada, e não por unanimidade. A próxima rodada de negociações ocorrerá em novembro, no Quênia, com participação do Brasil e de outros países favoráveis à proposta.
Para Piketty, a participação de países do Sul global é necessária para evitar que riquezas sejam transferidas das economias mais pobres para interesses do Norte. Ele afirma que os Estados Unidos devem se opor à convenção, mas que podem perder poder de veto no futuro.
Desigualdade e nacionalismo
O economista avalia que a situação global piorou desde a comparação que fez, anos atrás, entre o cenário contemporâneo e as condições que antecederam a Revolução Francesa. Ele relaciona o quadro à desigualdade extrema e alerta para o avanço de visões tecnonacionalistas.
“Em muitos sentidos, [a situação] piorou”, disse. Ao mesmo tempo, Piketty afirma acreditar que forças democráticas e movimentos sociais poderão transformar as instituições e conduzir o mundo a uma situação mais igualitária.
Para ele, a esquerda perdeu parte de sua capacidade de apresentar propostas de redistribuição de renda e passou a aceitar políticas favoráveis às corporações e a menor progressividade tributária. Esse movimento, segundo o economista, abriu espaço para discursos nacionalistas.
Piketty afirma que, se o curso atual não mudar, o mundo ficará mais desigual, mais quente e mais instável. Ele, porém, acredita que as forças tecnonacionalistas não conseguirão resolver os problemas estruturais e que a pressão do Sul global favorecerá um futuro multipolar, com predominância de forças democráticas.



