ITUMBIARA (GO) — A religião aparece como um dos fatores que influenciam as escolhas políticas de mulheres para a disputa presidencial de 2026. Entre as evangélicas, Flávio Bolsonaro (PL) registra 46% das intenções de voto, contra 26% de Lula (PT), segundo pesquisa Datafolha de julho.
A estudante Kawanny Almeida do Nascimento, 17, decidiu tirar o título de eleitor depois de conversar com colegas da escola pública onde estuda e com a família. Embora não seja obrigada a votar, ela afirma ter entendido que o voto pode afetar a sociedade e seu próprio futuro. Ainda indecisa, considera os princípios associados aos candidatos e cresceu em uma família evangélica.
As mulheres são maioria entre o eleitorado e também entre os indecisos. Elas representam 55% dos evangélicos e são maioria em todas as vertentes religiosas, com exceção do grupo que declara não ter religião.
Fé e escolhas políticas
A mineira Carliane Avellar Gandra, 42, identifica sua orientação política com a direita e afirma que suas escolhas são baseadas em valores formados em uma família cristã e conservadora. Moradora de Belo Horizonte, ela frequenta a igreja evangélica da Lagoinha e administra uma empresa de temperos criada por seu pai há 40 anos.
Carliane pretende votar em Romeu Zema (Novo), citando a defesa da liberdade econômica e do conservadorismo. Em um eventual segundo turno sem o ex-governador de Minas, diz que escolheria Flávio Bolsonaro contra qualquer candidato que não fosse Lula.
A eleitora também defende um Estado menor e a redução de impostos, mas afirma que o aborto é o tema que mais pesa em sua decisão. “Sou uma pessoa 100% contra o aborto, isso é o mais importante para mim”, diz.
A pernambucana Rayane Barros, 23, está no campo político da esquerda e atribui ao candomblé uma mudança em sua trajetória. Ela conta que uma mensagem de seu orixá, associado à justiça, a levou ao trabalho social e a uma nova orientação política. Antes, cursava Direito e queria ser policial. Atualmente, estuda Ciências Sociais e Serviço Social.
Criada por uma mãe solo, Rayane trabalha em uma organização social. Para ela, votar em Lula significa defender sua existência como mulher negra, integrante de uma religião de matriz africana e LGBTQIA+. Seu projeto é um mundo sem violência e racismo. Para o retrato, usa um cocar da Jurema Sagrada, também praticada por ela.
Conservadorismo entre evangélicas
A pesquisa Datafolha de julho indica que as eleitoras são menos influenciadas do que os homens por amigos, filhos, cônjuges e lideranças religiosas. Ainda assim, o levantamento mostra uma preferência maior de evangélicas por Flávio Bolsonaro, apesar de ele ter a maior rejeição entre as mulheres.
Estudo anual do Iser (Instituto de Estudos da Religião), realizado desde 2021, aponta que valores reconhecidos como cristãos estão entre os principais elementos considerados por mulheres evangélicas ao decidir o voto. Nesse grupo, candidatos contrários ao aborto, às drogas e à homossexualidade são vistos como opções melhores.
Até 2024, a maioria das evangélicas dizia ser contrária ao feminismo. Em 2025, 63% passaram a afirmar que é possível ser cristã e feminista.
A coordenadora do Iser, Lívia Reis, afirma que a religião funciona como um marcador social, mas precisa ser analisada junto com renda, raça e escolaridade. Para ela, há uma aproximação entre valores morais de evangélicas e o discurso de direita ligado ao bolsonarismo, embora o grupo não forme um bloco uniforme.
Reis também identifica uma mudança recente em direção à direita entre evangélicas ouvidas em entrevistas qualitativas. Nesse processo, a proteção da família e da infância aparece associada à transferência do cuidado para o ambiente familiar, em oposição ao discurso governamental de esquerda. Ela afirma ainda que o aborto costuma ser tratado por essas mulheres a partir de referências religiosas e políticas, e não como uma questão de saúde pública.
A historiadora Heloisa Starling relaciona a mobilização política de mulheres conservadoras a três períodos: a atuação das “blusas verdes” do integralismo nos anos 1930, a mobilização civil-religiosa em torno do golpe de 1964 e as células de oração do projeto Alicerça Brasil, liderado por Michelle Bolsonaro. Segundo Starling, o projeto usa grupos de oração em casas para formar núcleos políticos.
A aproximação da direita com o conservadorismo das igrejas neopentecostais também ocorre por meio da atuação de mulheres evangélicas na política, como Michelle Bolsonaro e Damares Alves. Para Rayane, a preferência de evangélicos por Flávio Bolsonaro está ligada ao discurso religioso de submissão feminina.



