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Famílias dizem que médium usou dados online em cartas psicografadas

Relatos apontam informações retiradas de redes sociais e documentos; lideranças espíritas apresentaram notícia-crime contra Máira Rocha.

Famílias dizem que médium usou dados online em cartas psicografadas
Foto: Reprodução/Globo

Famílias que procuraram a médium Máira Rocha para receber cartas psicografadas afirmam ter encontrado, nas mensagens atribuídas a parentes mortos, informações disponíveis na internet, em redes sociais e em documentos fornecidos antes das sessões. Também há acusações de ameaça, charlatanismo e estelionato contra a advogada, que trabalha no Ministério da Saúde e não aceitou gravar entrevista sobre as denúncias.

Máira é conhecida como médium em Brasília e fundou, no começo deste ano, a Casa da Caridade Inácio Daniel. A instituição atende cerca de 5 mil pessoas por mês, funciona com doações e oferece alimentos, roupas e agasalhos. As cartas psicografadas, chamadas também de cartas consoladoras, estão entre os atendimentos coordenados por ela.

Relatos de famílias

Marina Escames procurou Máira após a morte do marido, Thiago, que morreu de leucemia. Ela contou que precisava de uma mensagem para si e para o filho Matteo, que tinha 3 anos quando perdeu o pai. Antes da sessão, precisou enviar nomes completos, CPF e informações sobre o acompanhante, com inscrição feita 60 dias antes.

Durante uma fila de abraços, Marina disse que informou o nome completo do marido, a causa da morte e entregou uma fotografia. Depois, Máira teria apresentado uma mensagem com a expressão “te amo pra cacete”, que aparecia em uma publicação antiga de Thiago. A carta também mencionava uma tatuagem de âncora e chá de camomila, detalhes que Marina identificou em fotos e vídeos publicados na internet.

O filho de Marina, Nicolas, encontrou semelhanças entre a carta e o perfil do pai. A mãe também concluiu que o episódio de bullying mencionado na psicografia havia sido relatado por Matteo em uma carta entregue pessoalmente à médium. Segundo Marina, o menino entrou em depressão após descobrir o que considerou uma fraude.

Marcela Magalhães, que perdeu o filho Henrique, de 18 anos, em um acidente de carro, disse ter recebido um recado durante uma transmissão ao vivo. Máira afirmou que estava com Henrique, descrito como jogador de futebol. A família, porém, identificou que a informação vinha de uma reportagem que havia associado o jovem a um uniforme esportivo.

Marcela também contestou a associação de Henrique a outras duas pessoas que apareciam em uma montagem publicada nas redes sociais. João morreu de AVC em abril de 2020, Letícia morreu de mal súbito em 2005, e Henrique morreu em fevereiro de 2020. Os três não estavam envolvidos no mesmo acidente.

Diva Mascarenhas Borges encontrou outros problemas em uma carta atribuída ao pai. O texto citava a esposa dele, Judite, embora ela tivesse morrido um ano antes, e usava nomes registrados de dois filhos adotivos que não eram utilizados pela família. A carta ainda informava que o aniversário do pai seria em 5 de maio, enquanto Diva disse que ele havia nascido em 16 de maio de 1918. Uma pesquisa em um blog de Jequié encontrou a mesma data incorreta.

Silvano também denunciou uma carta atribuída à mãe, morta no ano 2000. Segundo ele, a mensagem citava netos, mas teria esquecido um deles e incluído Tábata, que não seria neta da mulher. Ele registrou ocorrência por causa das incoerências.

Acusações e investigação

Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime contra Máira por estelionato, charlatanismo e possível crime previsto no artigo 232 do ECA, relacionado a submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento.

Há registros policiais contra a médium em pelo menos cinco estados por estelionato, calúnia, difamação e ameaça. Silvano registrou duas novas ocorrências no Distrito Federal. O Ministério Público recebeu acusações de apropriação indébita, desvio de recursos e rede de influência com servidores públicos.

O advogado Luiz Henrique Machado afirmou que o estelionato espiritual ocorre quando a fé é usada para enganar alguém com a alegação de que foram obtidas informações extraordinárias. Para ele, a prática pode envolver a busca de dados em bancos de informações e na internet para produzir uma carta apresentada como psicografada.

Pedro Camilo, escritor e pesquisador espírita, disse que o fornecimento de informações ao médium e a exigência de prazos longos para a entrega da carta são sinais que merecem atenção. Ele afirmou que esses dados podem ser usados para montar um dossiê sobre a pessoa morta e seus familiares.

Regras e críticas no espiritismo

Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira, criticou os leilões de roupas e objetos usados por Máira nas sessões. Segundo ele, a doutrina espírita não autoriza esse tipo de prática e orienta o serviço desinteressado.

Godinho também comparou os procedimentos relatados pelas famílias à atuação de Chico Xavier. De acordo com ele, o médium recebia pessoas sem saber previamente quem estaria presente, sem CPF ou endereço dos participantes.

Pesquisadores afirmam que existem estudos sérios sobre mediunidade. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde, liderado pelo psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, seleciona médiuns voluntários sem benefício material e monitora os encontros com pessoas enlutadas. Moreira-Almeida disse haver evidências consistentes de que alguns médiuns conseguem obter informações precisas sobre mortos sem meios convencionais.

O psicólogo e pesquisador Everton Maraldi afirmou que a sensação de ser enganado durante o luto pode levar a pessoa a questionar suas crenças e prejudicar seu bem-estar e sua saúde mental. Jorge Hessen chamou a prática atribuída a falsos médiuns de “estelionato por luto” e pediu cautela.

Máira Rocha foi procurada diversas vezes para responder às acusações, mas não aceitou gravar entrevista. Em uma declaração, afirmou que poderia expor publicamente informações sobre pessoas que a acusassem de buscar dados na internet e disse preferir responder a um processo cível.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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