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Como James Joyce se tornou uma paixão literária no Brasil

Com três traduções integrais de “Ulisses”, o Brasil criou uma tradição própria de recriação da obra de Joyce.

Como James Joyce se tornou uma paixão literária no Brasil
Foto: Divulgação

O Brasil consolidou uma tradição de traduzir e recriar James Joyce, autor irlandês cuja linguagem experimental fez de “Ulisses” uma obra considerada intraduzível. O país já publicou três traduções integrais do romance e duas de “Finnegans Wake”. Outras duas traduções completas de cada livro estão em revisão.

A produção inclui ainda seis versões dos contos de “Dublinenses” e sete do romance “Um Retrato do Artista Quando Jovem”. Ao todo, há registros de 18 traduções integrais da principal ficção de Joyce. A Biblioteca Nacional lista mais 20 traduções de trabalhos menores e fragmentos.

Uma tradição construída ao longo de um século

As primeiras referências brasileiras a Joyce apareceram em 1924. Em junho daquele ano, Mário de Andrade citou um trecho de “Ulisses” no artigo “Da Fadiga Intelectual”, publicado na Revista do Brasil. Em dezembro, Gilberto Freyre escreveu sobre o romance no Diário de Pernambuco.

A primeira tradução completa de uma obra de Joyce no país foi “Um Retrato do Artista Quando Jovem”, vertida por José Geraldo Vieira e publicada em 1945 pela Livraria do Globo, de Porto Alegre. O primeiro fragmento conhecido de “Ulisses” em português brasileiro surgiu em setembro de 1946, em tradução de Erasmo Pilotto para a revista Joaquim. Em 1947, Pagu publicou outra versão de um trecho do romance no Diário de S.Paulo.

A tradição ganhou força em 1962, com a publicação de estudos e fragmentos de “Finnegans Wake” pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos em “Panaroma do Finnegans Wake”. Pesquisadores apontam esse trabalho como um marco da recriação de Joyce no Brasil.

Donaldo Schüler, primeiro brasileiro a traduzir integralmente “Finnegans Wake”, publicou “Finnicius Revém” entre 1999-2003. Dirce Waltrick do Amarante coordenou o Coletivo Finnegans, vencedor do Prêmio Jabuti de tradução em 2023 com “Finnegans Rivolta”, a segunda tradução integral do livro no Brasil.

Para Dirce, a condição de obra intraduzível explica a continuidade das versões. “Intraduzível significa dizer que são obras que não cessam de ser traduzidas”, afirma. Aurora Bernardini, integrante do coletivo, define a obra como aberta, com muitos sentidos de leitura.

As versões de “Ulisses”

Antônio Houaiss produziu a primeira tradução integral de “Ulisses” em língua portuguesa. Publicada em 1966 pela Civilização Brasileira, a versão foi revista para uma segunda edição, de 1967, que incorporou sugestões de Augusto de Campos.

A edição agora relançada reproduz a orelha assinada por Campos, as 26 notas de rodapé e o texto de capa original. Também acrescenta um ensaio de Houaiss, de 1972, e uma apresentação de Vitor Alevato do Amaral, responsável pela revisão.

Em 2005, Bernardina da Silveira Pinheiro publicou uma versão mais coloquial pela editora Objetiva. Reeditada pela Nova Fronteira em 2022, ela inclui notas de leitura e foi a única tradução integral do romance feita por uma mulher na América Latina.

Caetano Galindo publicou em 2012 sua tradução de “Ulysses”, grafada com “Y”, como no original, depois de dez anos de trabalho. A versão de Galindo, assim como as de Houaiss e Bernardina, integra um processo contínuo de releitura do romance.

Por que Joyce encontrou espaço no país

Pesquisadores associam a recepção brasileira de Joyce ao trabalho dos irmãos Campos e a uma concepção de tradução como criação literária, não apenas como busca de fidelidade técnica. Para Vitor Alevato do Amaral, o país criou uma tradição tradutória própria para o escritor.

Caetano Galindo relaciona essa permanência ao “amor pela diversão com a palavra” e à convivência entre vanguarda e cultura popular. “Ulysses” é descrito como um livro cômico e carnavalizado, que subverte papéis e rejeita a ideia de centralidade.

A leitura política também ganhou espaço. A obra desafia o poder colonial britânico e discute questões de gênero e sexualidade. Em “Ulisses”, Leopold Bloom, judeu excluído da sociedade de Dublin, assume o papel de um novo Odisseu.

A tradução de Houaiss foi realizada depois que o primeiro Ato Institucional da ditadura militar, em abril de 1964, suspendeu seus direitos políticos. Impedido de exercer a diplomacia, ele aceitou o convite do editor Ênio Silveira para trabalhar na tradução e na revisão, concluídas em menos de um ano.

Novas traduções

O movimento continua. Uma nova versão de “Ulisses”, feita por 18 autores-tradutores, com um tradutor para cada capítulo e coordenação de Henrique Xavier, foi anunciada em 2022 pela Ateliê Editorial e deve ser publicada em dezembro deste ano.

Também está em pré-venda uma nova tradução de “Dublinenses”, realizada pelo Coletivo Dublinense. “Finnegans Wake” ganhará outras recriações em português, incluindo trabalhos de Caetano Galindo, Afonso Teixeira Filho, Sérgio Medeiros e versões coordenadas por Dirce Waltrick do Amarante.

Para Xavier, esse conjunto de traduções registra a presença de Joyce em diferentes gerações e localidades brasileiras. A multiplicidade de versões mantém aberta a disputa criativa em torno de uma obra que, no país, deixou de ser apenas um desafio para se tornar uma tradição literária.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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