SÃO LUÍS — O reggae se tornou parte da identidade cultural de São Luís a partir da combinação entre música jamaicana, festas populares, dança em dupla e grandes sistemas de som. A cidade, que completa 414 anos nesta terça-feira (8), é conhecida como “Jamaica Brasileira” e recebeu, desde 2023, o título oficial de Capital Nacional do Reggae.
Das festas populares às rádios
A pesquisadora Karla Freire afirma que o gênero começou a se espalhar nos salões dos bairros populares no fim dos anos 1970. Os discos passaram a ser tocados nas danceterias e conquistaram principalmente jovens negros das periferias. Na década seguinte, os programas de rádio dedicados ao reggae ampliaram o alcance das festas e ajudaram a consolidar a associação entre São Luís e a Jamaica.
A origem da expressão “Jamaica Brasileira” aparece em diferentes relatos. Um deles está no depoimento de Fauzi Beydoun, cantor da banda Tribo de Jah e comunicador, à pesquisadora Maria do Carmo Lima Morais. Para Beydoun, a comparação estava ligada às semelhanças percebidas entre os clubes de São Luís e a Jamaica, à presença da cultura negra e à forma como a população local incorporou o ritmo. Maria do Carmo aponta a influência dos meios de comunicação na construção dessa imagem.
O nome também encontrou oposição. Carlos Benedito Rodrigues da Silva, antropólogo e professor da Universidade Federal do Maranhão, relata que parte da elite preferia a referência a “Atenas Brasileira”, associada à tradição literária da cidade. “A Atenas brasileira é algo que remete à Europa e ser a Jamaica brasileira é algo que remete à África. E não agradou a elite”, afirmou.
Dança, melôs e radiolas
O público maranhense adaptou o reggae aos hábitos das festas que já frequentava. Como lambada, forró, merengue e bolero eram dançados em dupla, os casais mantiveram a proximidade quando o novo ritmo tocava. O estilo agarradinho virou uma marca local e foi reconhecido pelo governo do Maranhão como Patrimônio Cultural Imaterial do estado em 2021.
As músicas também ganharam nomes próprios. DJs e apresentadores criavam apelidos para gravações em inglês, muitas vezes a partir de trechos interpretados como palavras em português. “White Witch”, de Andrea True Connection, por exemplo, ficou conhecida como “melô do caranguejo”. Termos como “pedra” e “pedrada” passaram a indicar canções que animavam o público.
As radiolas contribuíram para a expansão do gênero. Os equipamentos, que originalmente combinavam rádio e vitrola, receberam conjuntos de caixas de som maiores. Proprietários disputavam potência e exclusividades. Para dificultar a identificação das faixas, alguns discos tinham os selos raspados. Os DJs selecionavam as músicas, davam recados, anunciavam festas e mantinham a conexão com os frequentadores.
Reconhecimento cultural
A chegada do reggae ao Maranhão tem versões diferentes. Karla Freire menciona relatos sobre marinheiros que teriam trocado vinis por comida e bebida, além da circulação de discos vindos do Pará. Também destaca o DJ José Ribamar da Conceição Macedo, conhecido como Riba Macedo, apontado por donos de radiolas como um dos pioneiros na divulgação do gênero.
Antes de ser identificado como reggae, o ritmo chegou a ser chamado de “música estrangeira lenta”. Mesmo sem compreender as letras em inglês, parte da juventude negra criou uma relação de pertencimento com a música, incorporando-a ao comportamento e à forma de se vestir.
A popularização ocorreu em meio a preconceito social e racial. Segundo Karla, jornais antigos frequentemente relacionavam as festas a ocorrências policiais e davam pouca visibilidade aos espaços de lazer da população negra e pobre como locais de cultura. A partir dos anos 1990, universitários, artistas e integrantes da classe média passaram a frequentar locais como o Espaço Aberto, enquanto a cobertura jornalística começou a destacar mais o aspecto cultural do movimento.
Em 2020, um projeto de lei que propôs o título nacional mencionou a existência de mais de 200 radiolas em São Luís. O reconhecimento oficial veio em 2023, quase cinco décadas depois de o reggae ocupar os salões e se tornar parte da vida cultural da capital maranhense.



