O diagnóstico da endometriose pode levar de sete a nove anos e, em muitos casos, exige cirurgia para confirmar a presença de lesões. Exames de imagem, como ressonância magnética e ultrassonografia, nem sempre identificam a doença de forma confiável.
A condição ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele e afeta pelo menos 1 em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Diante da dificuldade de confirmação, empresas passaram a desenvolver exames não invasivos baseados em saliva, sangue e sinais elétricos do trato gastrointestinal.
O que os exames analisam
O Endotest procura na saliva um padrão de microRNAs, moléculas ligadas à regulação dos genes. O EndoSure mede a atividade elétrica gastrointestinal. Já o EndomTest busca duas proteínas no sangue.
A Xella Health desenvolveu um algoritmo de inteligência artificial que combina biomarcadores sanguíneos, sintomas e histórico médico para estimar o risco de endometriose. A precisão do sistema ainda não foi avaliada publicamente. A empresa também trabalha em um exame com fluido menstrual, baseado em uma análise não publicada de 28 amostras.
A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, não aprovou nenhum teste não invasivo para a doença. Alguns produtos são oferecidos apenas para pesquisa ou por meio de uma brecha regulatória que a agência tentou fechar.
Cada um dos três primeiros exames é apoiado por pelo menos um estudo revisado por pares conduzido ou financiado pelo fabricante. Especialistas, porém, afirmam que os resultados disponíveis ainda não permitem avaliar com segurança o desempenho dos testes na população em geral.
Resultados e limitações
Estudos iniciais do Endotest e do EndoSure identificaram corretamente mais de 90% das pessoas com e sem endometriose. O principal estudo do Endotest envolveu 971 pacientes; o do EndoSure, 154. Nos dois trabalhos, a maioria dos participantes tinha a doença.
Segundo especialistas, estudos com populações em que a endometriose é muito frequente podem produzir resultados melhores do que os observados na prática, porque há menos oportunidades de classificar incorretamente pessoas com outras condições. Além disso, os trabalhos eram limitados pelo tamanho das amostras e pelos tipos de pacientes incluídos.
Uma pesquisa independente sobre o Endotest apresentou resultados menos expressivos, mas também foi pequena e usou uma população pouco representativa. Estudos realizados na Bélgica e no Brasil avaliaram o EndoSure, mas ainda não passaram por revisão por pares e incluíram poucas pessoas sem endometriose.
A fabricante do Endotest informou que estavam em andamento estudos prospectivos em condições reais envolvendo até 25.000 mulheres. A empresa responsável pelo EndoSure também afirmou realizar pesquisas com grupos mais amplos.
A tecnologia de microRNA do Endotest é considerada promissora por especialistas, embora ainda precise ser aperfeiçoada. Já as evidências sobre os sinais elétricos intestinais analisados pelo EndoSure são mais preliminares. Doenças, medicamentos e outros fatores podem alterar a motilidade intestinal, o que exige pesquisas adicionais para verificar se os sinais são específicos da endometriose.
O EndomTest apresentou quase nenhum falso positivo em um estudo pequeno, mas identificou apenas 46,2% das pessoas com endometriose. A empresa que licenciou o exame informou que outros estudos estavam em andamento. Especialistas também questionam o uso de uma das proteínas analisadas, porque seus níveis aumentam em várias doenças.
Próximas etapas
Um teste atualmente disponível, ou uma versão modificada dele, pode ser validado nos próximos anos. Os exames talvez sejam especialmente úteis em situações de sintomas ambíguos, como infertilidade sem causa aparente e ausência de dor, ou em adolescentes com sinais leves.
Um grande ensaio clínico avalia o DotEndo, exame de sangue baseado em microRNA. Se os resultados forem positivos, a DotLab poderá solicitar a aprovação da FDA já em 2027, embora ainda não tenha definido o caminho regulatório.
Pesquisas recentes também indicam que adolescentes com endometriose em estágio inicial podem apresentar marcadores de microRNA diferentes dos observados em adultas. Isso pode exigir exames específicos para cada grupo.
Enquanto os testes não são validados, especialistas afirmam que médicos podem diagnosticar e tratar muitas pacientes a partir dos sintomas e do exame físico. A principal expectativa é que métodos não invasivos se tornem disponíveis, embora ainda não esteja definido qual dos exames em desenvolvimento será o mais eficaz.



