A compra de produtos caros pode cumprir uma função que vai além da utilidade: comunicar status, exclusividade ou pertencimento. Esse comportamento, associado ao consumo ostensivo, aparece quando o bem passa a transmitir uma mensagem sobre quem o possui ou sobre o grupo ao qual essa pessoa deseja se aproximar.
Fernanda* recebeu o primeiro salário aos 18 anos e usou o dinheiro para comprar uma bolsa. Como o preço poderia superar sua renda daquele mês, ela parcelou a compra. Depois, repetiu o padrão com outros produtos e com um carro maior e mais sofisticado do que, segundo ela, sua rotina exigia.
“Eu precisava me autoafirmar perante o outro”, afirma Fernanda. Ela diz que não conseguia guardar dinheiro e gastava a renda com itens que considerava desnecessários. Mais tarde, associou esse comportamento a uma experiência de abandono na infância.
Status, identidade e pertencimento
A psicóloga econômica Vera Rita Ferreira afirma que as pessoas são influenciadas pelo comportamento de quem está ao redor. A imitação faz parte do aprendizado desde a infância e também pode aparecer nas decisões de consumo. Para ela, produtos de acesso restrito podem oferecer a sensação de exclusividade e diferenciação.
A ideia foi estudada pelo economista e sociólogo americano Thorstein Veblen, que descreveu o consumo conspícuo como a compra e a exibição de bens para demonstrar riqueza e posição social.
Nelsio Rodrigues, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisador de consumo, destaca que a ostentação também pode estar ligada ao desejo de pertencer a um grupo. Nesse processo, objetos como celulares, roupas, carros e marcas podem participar da construção da identidade. O conceito de “self estendido”, formulado pelo pesquisador Russell Belk, descreve justamente a projeção de aspectos pessoais em artefatos e posses.
A comparação social é outro elemento apontado por Vera Rita. Segundo ela, a busca por ostentar pode surgir quando a pessoa não tem segurança sobre sua própria posição em relação aos demais. Pesquisas também analisam a ligação entre consumo ostensivo, autoestima, exclusão social e relacionamentos.
Um estudo publicado em 2023 na revista Frontiers in Psychology identificou maior propensão ao consumo ostensivo entre participantes que haviam sido expostos à lembrança de rejeição ou traição, em comparação com aqueles que recordaram uma experiência positiva de relacionamento.
Outra pesquisa, chamada Pavões, Porsches e Thorstein Veblen: o consumo ostentatório como sistema de sinalização sexual, avaliou o comportamento em quatro experimentos. Os pesquisadores encontraram, entre homens, associação entre determinados contextos ligados a relacionamentos de curto prazo e gastos mais extravagantes. O resultado indica que a exibição de bens de status pode ter funções sociais diferentes de simplesmente mostrar recursos financeiros.
Quando o consumo afeta as finanças
O consumo passa a ser um problema quando deixa de caber no orçamento. Rodrigues observa que crédito e parcelamento facilitaram o acesso a produtos de alto valor sem que o comprador precise pagar todo o preço imediatamente. O professor cita a expressão “pobreza de luxo”, usada nas redes sociais para situações em que a pessoa acessa bens e experiências associados a padrões mais altos, mas compromete a renda com dívidas e parcelas.
Parcelar uma compra não significa necessariamente estar endividado. O risco aparece quando várias aquisições comprometem a renda futura, diminuem a capacidade de poupar e dificultam o enfrentamento de imprevistos. Rodrigues também afirma que o consumo pode envolver reconhecimento social, já que não dominar certos códigos de comportamento ou não saber usar determinados objetos pode gerar efeitos psicológicos e sociais.
Fernanda procurou psicólogo e psiquiatra e passou a participar dos Devedores Anônimos (DA), grupo voltado a pessoas que querem interromper ciclos de endividamento. Ela também adotou um planejamento de gastos para limitar compras impulsivas.
“Até R$ 100 eu não pergunto para ninguém. Acima de R$ 100, eu vou perguntar para uma terceira pessoa”, diz Fernanda. Pelo plano, ela define valores máximos para despesas, como R$ 150 para uma bolsa e R$ 100 para um sapato.
Redes sociais ampliam a comparação
As redes sociais expandiram a comparação de consumo para além de vizinhos, familiares e pessoas próximas. Viagens, carros, celulares e restaurantes exibidos por usuários de diferentes grupos e países passaram a funcionar como sinais de status disponíveis a um público maior.
Para Vera Rita, essa exposição favorece o comportamento de manada e intensifica a comparação, principalmente entre pessoas que já se sentem inseguras ou insatisfeitas. A psicóloga afirma que alguém pode se medir pela vida de uma pessoa na China ou na Suécia sem conhecer sua situação financeira real.
Fernanda decidiu se afastar das redes sociais por considerar que elas apresentam uma imagem incompleta da vida dos outros. Para ela, uma pessoa pode aparentar ter muitos bens e, ao mesmo tempo, estar endividada.
*Sobrenome ocultado para preservar o anonimato.



