O empresário João Carlos Mansur afirmou, em acordo de delação premiada fechado com a Procuradoria-Geral da República, que fundos de investimento administrados pela Reag foram usados para ocultar o pagamento de propinas atribuídas a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para autoridades públicas.
A colaboração foi encaminhada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e ainda precisa ser validada. A Polícia Federal participou do começo das negociações, mas não continuou nas tratativas.
De acordo com pessoas que conhecem o conteúdo do acordo, Mansur descreveu a atuação da Reag, dos fundos envolvidos no esquema e de pessoas que operariam como laranjas de Vorcaro. A delação também apresenta informações sobre a movimentação financeira, a localização de recursos enviados para fora do Brasil e os procedimentos para tentar recuperar esses valores.
Recursos no exterior
Investigadores afirmam que uma parte relevante do dinheiro desviado está em offshores, empresas registradas fora dos países de seus proprietários. O acordo pode permitir a devolução dos valores sem que sejam necessários, em muitos casos, entendimentos com autoridades estrangeiras. Assim, países onde os recursos estão depositados não cobrariam uma parcela do dinheiro recuperado.
Como parte do acordo, Mansur se comprometeu a pagar uma multa de R$ 40 milhões. A defesa de Vorcaro informou que não teve acesso aos anexos e, por isso, não se manifestou sobre o conteúdo. A defesa de Mansur não respondeu.
A Reag era uma das maiores gestoras independentes do país. Mansur deixou a presidência do Conselho de Administração em setembro de 2025, após a operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do Primeiro Comando da Capital em atividades da economia formal. A empresa foi apontada como um dos principais alvos e acusada de abrigar recursos provenientes do crime em fundos sob sua gestão.
Em janeiro deste ano, Mansur foi alvo de buscas na segunda fase da operação Compliance Zero, relacionada às investigações sobre o Banco Master. Ele não foi preso. Depois disso, o Banco Central determinou a liquidação da Reag por comprometimento da situação econômico-financeira e por violações às normas do sistema financeiro nacional.
A Polícia Federal suspeita que Mansur tenha usado fundos da gestora para ocultar o pagamento de propina em imóveis a Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília. Costa também tentou fazer um acordo de delação, mas as negociações não avançaram. Ele e Vorcaro estão presos no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal.
A negociação de Mansur com a PGR começou em fevereiro e terminou em agosto. Ele chegou a tentar fechar o acordo simultaneamente ao de Vorcaro, que teve duas propostas rejeitadas pela Polícia Federal e pela PGR. O advogado dos dois era José Luís Oliveira Lima. Mansur posteriormente passou a ser defendido por Aloisio Lacerda Medeiros.
Em agosto, a PGR também fechou acordo com Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Próximo de Vorcaro, ele afirmou ser responsável por remessas financeiras e pela obtenção de dinheiro vivo para o ex-banqueiro. Investigadores avaliam que as duas delações reduziram a capacidade de negociação de Vorcaro para uma nova colaboração.



