SÃO PAULO — A paridade global de gênero pode levar 120 anos para ser alcançada se o ritmo histórico de progresso continuar, segundo o Global Gender Gap Report 2026, do Fórum Econômico Mundial. Uma menina que nasce hoje pode não ver homens e mulheres igualmente representados em cargos de liderança durante a vida.
O prazo para eliminar a diferença na liderança feminina seria de 50 anos com base no avanço observado até 2020. Considerando a velocidade registrada desde então, a estimativa sobe para 90 anos.
O relatório avalia quatro dimensões: participação econômica, educação, saúde e empoderamento político. Entre 97 economias acompanhadas desde 2006, a parcela da desigualdade eliminada passou de 64,2% para 69,4% em duas décadas, uma alta de 5,2 pontos percentuais. Nenhum dos 145 países analisados em 2026 alcançou a paridade completa, e 36% das economias comparáveis tiveram queda na pontuação em relação ao ano anterior.
Mulheres perdem espaço no avanço da carreira
A maior diferença aparece na passagem para os cargos mais altos. Mulheres ocupam 46% das posições de entrada, mas representam 23% dos profissionais no C-level. Em alguns setores, a distância entre o início e o topo da carreira supera 50 pontos percentuais.
Na cadeia de suprimentos e nos transportes, a participação feminina diminui 56,8 pontos percentuais entre os cargos iniciais e os de maior nível. A diferença é de 56,6 pontos em infraestrutura e de 55 pontos no mercado imobiliário.
A participação de mulheres em conselhos de administração quase dobrou, de 15,2% em 2014 para 29,3% em 2024. No comando desses conselhos, porém, a presença feminina passou de 3,2% para 5,2%. Nas 500 maiores empresas globais da lista Fortune, o número de mulheres na presidência-executiva aumentou de 14 em 2015 para 32 em 2025. A proporção de CEOs mulheres subiu de 2,8% para 6,4%.
Para Liliane Rocha, fundadora e CEO da Gestão Kairós, vieses influenciam decisões de contratação e promoção. Ela também relaciona a desigualdade à divisão das tarefas domésticas e de cuidado e à falta de uma cultura de paternidade mais participativa. “Mulheres entram, mas não são promovidas na mesma velocidade”, afirma.
Inteligência artificial mantém desigualdade
O relatório aponta participação menor de mulheres na inteligência artificial. Elas são 36,6% dos profissionais em posições individuais nas empresas do setor, ante 44,8% nas demais companhias. Entre gestores intermediários, representam 34,1%, contra 35,9%; no topo da gestão, 25,3%, ante 27,7%.
A diferença é maior em funções técnicas: mulheres são 44,8% dos profissionais de anotação de dados, mas apenas 19,3% dos engenheiros de IA e 20,6% dos engenheiros de machine learning.
Entre 2019 e 2026, a parcela de fundadores homens que declarava habilidades em IA passou de 4,7% para 14,7%. Entre as mulheres, o percentual subiu de 2,3% para 8,7%.
A estudante Isabela Novais, 16, participa do Projeto Amigos da Comunidade (PAC), em Pirituba, na zona oeste de São Paulo. No projeto, ela recebe formação em gestão, tecnologia e outras disciplinas voltadas ao mercado de trabalho. A jovem pretende cursar engenharia civil e faz também um curso sobre mulheres na ciência.
Isabela relata ter sido direcionada a tarefas de limpeza e cozinha em um trabalho em um bar, enquanto homens preparavam bebidas, atendiam clientes e fechavam contas. Em uma empresa de engenharia do tio, acompanhava visitas a obras, mas diz que não podia entrar em alguns setores por ser mulher.
Ela afirma que quer alcançar posições de liderança e ser avaliada por sua qualificação e desempenho. “120 anos é muito tempo. Acho que a igualdade deveria começar agora”, diz.
Para Liliane, empresas que desejam medir seu avanço devem analisar a composição dos quadros e da liderança, os programas de desenvolvimento e os dados de remuneração, além de campanhas e compromissos públicos.



