A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno e a nova composição do Congresso Nacional prevista para 2027 aumentaram, entre economistas e agentes do mercado, a expectativa de aprovação de medidas de ajuste fiscal em um eventual governo do candidato.
A avaliação já influencia os preços dos ativos e pode favorecer a queda dos juros nos próximos dias. Ao mesmo tempo, há preocupação de que uma agenda de retaliação política domine o governo e reduza o espaço para a discussão das contas públicas.
Essa agenda inclui a anistia a Jair Bolsonaro (PL) e aos envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, além da possibilidade de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O Senado deverá ter ao menos 49 congressistas favoráveis ao afastamento de ministros do Supremo, ante os 54 votos necessários. Para parte dos economistas, esse cenário pode elevar a tensão institucional.
Ajuste fiscal sem detalhes
Assessores de Flávio já sinalizaram uma melhora fiscal equivalente a 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto), mas não apresentaram as medidas que seriam usadas para alcançar esse resultado. A avaliação entre os especialistas é que o candidato ganhou espaço para manter essa estratégia, já que propostas de contenção de despesas costumam ser impopulares durante a campanha.
João Camargo, presidente do conselho da Esfera Brasil, projetou alta de 5% da Bolsa e afirmou que, caso Flávio mostre disposição para reorganizar as contas públicas, o Banco Central poderia reduzir a Selic em 300 pontos, o equivalente a uma queda de 3 pontos percentuais ante os atuais 13,75% ao ano. “É só mostrar que você tem vontade de acertar o fiscal”, disse.
O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles afirmou que não houve uma discussão aprofundada sobre propostas econômicas e avaliou que isso provavelmente não mudará até o segundo turno. Para ele, seria necessário adotar uma política fiscal rigorosa, conter o crescimento das despesas e impedir o avanço da dívida.
Meirelles também considera provável que Flávio não detalhe seu programa fiscal nem antecipe os nomes de um eventual ministério. José Marcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, disse que o mercado tende a reagir positivamente a uma vitória de Flávio e na direção oposta a uma reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ele, a situação fiscal é delicada, e ainda há incerteza porque Flávio nunca ocupou um cargo no Executivo.
Reação dos ativos
Felipe Balassiano, chefe de multimercados do ASA, prevê forte alta da Bolsa, valorização do real ante outras moedas e queda dos juros caso o mercado passe a antecipar uma vitória de Flávio no segundo turno. Para ele, a reação seria determinada pela expectativa de maior disciplina fiscal no próximo governo.
Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, avalia que Flávio chega ao segundo turno como favorito e não deve alterar, nas próximas três semanas, a decisão de evitar detalhes sobre suas propostas econômicas. Fraga afirmou que a presença de um grupo expressivo de senadores da direita pode reforçar essa escolha.
O economista também disse que ainda não estão claros os caminhos para alcançar superávits nas contas públicas. Entre os pontos mencionados estão o salário mínimo, a indexação da Previdência e os programas do governo.
Empresários defendem mudanças
Flávio Rocha, acionista do Grupo Riachuelo e dono das Lojas Riachuelo, afirmou esperar maior responsabilidade na administração das contas públicas e uma redução da insegurança jurídica. Ele também defendeu a revisão da reforma tributária, sob o argumento de que ela não deverá entregar simplificação, menor judicialização e redução da informalidade.
Marcelo Kayath, sócio da QSM Capital e colaborador da campanha de Flávio, considerou positiva a eleição para o Congresso e afirmou que a nova configuração pode facilitar a aprovação de reformas e propostas de emenda à Constituição.
Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio-fundador da Mauá Capital, relacionou o resultado à percepção de bem-estar da população. Ele afirmou que 80% das famílias estão endividadas e 60% não conseguem pagar suas prestações. Figueiredo também citou, entre as propostas de Flávio, o ajuste de 1,5% do PIB e a reforma administrativa.
Para o financista, os temas institucionais ganharam mais importância que a economia e não há expectativa de que Flávio anuncie agora os nomes de ministros da área econômica.



