A ideia de que o consumo moderado de álcool protegeria o cérebro vem sendo questionada por estudos mais recentes. Pesquisas observacionais que associavam o consumo leve a um risco menor de demência podem ter confundido os efeitos do álcool com diferenças de escolaridade, renda e estado geral de saúde entre os grupos analisados.
Em 2003, um estudo publicado no Journal of the American Medical Association associou o consumo de duas ou mais bebidas alcoólicas por dia a um risco 22% maior de demência. Na mesma análise, pessoas que bebiam menos apresentaram risco até 54% menor do que aquelas que não consumiam álcool.
Esse padrão, conhecido como curva em formato de J, apareceu em vários estudos observacionais: o risco parecia maior entre quem bebia muito e menor entre consumidores leves ou moderados. A interpretação mais recente é que a suposta proteção pode ser explicada por fatores associados ao perfil desses consumidores, como nível socioeconômico mais elevado, mais anos de escolaridade e melhor saúde geral.
Como o consumo elevado afeta o cérebro
As evidências sobre os danos do consumo excessivo de álcool se acumularam, embora os pesquisadores ainda estudem a quantidade a partir da qual os efeitos começam. O consumo excessivo é frequentemente definido como mais de duas doses por dia.
Pesquisas realizadas em animais e em células humanas em laboratório indicam que o álcool pode provocar estresse oxidativo no cérebro e desregular o sistema imunológico cerebral, desencadeando inflamações. Tanto o estresse oxidativo quanto a inflamação estão associados à demência.
O álcool também pode afetar o cérebro de forma indireta. Pessoas que bebem muito têm risco maior de hipertensão e AVC, cujos danos aos vasos sanguíneos são um fator determinante para a demência vascular. Esse grupo também tende a apresentar hábitos como tabagismo e dieta inadequada.
Em casos extremos, pessoas com transtorno por consumo de álcool podem desenvolver a síndrome de Wernicke-Korsakoff, uma forma de demência causada por deficiência grave de tiamina, a vitamina B1, decorrente do consumo crônico e pesado de álcool.
“Existem múltiplos caminhos diferentes” pelos quais o álcool pode danificar o cérebro, disse Louise Mewton, professora associada da Universidade de Sydney. Para ela, esses mecanismos podem atuar ao mesmo tempo, e a literatura científica ainda não está consolidada.
O que mostram os estudos sobre consumo moderado
Ainda é menos claro quando e como níveis mais baixos de consumo afetam o cérebro. Estudos que medem o volume cerebral encontraram sinais de possíveis danos mesmo entre consumidores leves ou moderados.
Um estudo de 2022 realizado no Reino Unido associou o consumo médio de oito doses por semana a um volume cerebral ligeiramente menor do que o observado entre pessoas que consumiam quatro doses por semana. A análise também encontrou uma relação entre maior consumo e menor volume cerebral.
Charles DeCarli, professor de neurologia da Universidade da Califórnia, Davis, afirmou que não há evidências de que quantidades moderadas de álcool danifiquem diretamente os neurônios. Ele ponderou, porém, que há uma relação entre pequenas doses de álcool e o cérebro, embora o volume cerebral não corresponda necessariamente ao desempenho cognitivo.
Outro estudo britânico acompanhou as habilidades de linguagem ao longo de 30 anos e encontrou declínio maior entre pessoas que consumiam quatro doses por semana do que entre abstêmias. O resultado também indicou piora da cognição à medida que o consumo aumentava.
Pesquisas genéticas reforçaram a preocupação. Um estudo publicado em janeiro encontrou a curva em J quando usou hábitos de consumo relatados pelos próprios participantes. Quando os pesquisadores repetiram a análise com genes associados à predisposição para beber muito, pouco ou nada, o risco de demência aumentou até em níveis baixos de consumo previsto.
Joel Gelernter, professor de psiquiatria, genética e neurociência na Faculdade de Medicina da Universidade Yale e participante do estudo genético, disse que passou a considerar que existe uma relação linear entre o consumo de álcool e o risco de declínio cognitivo. “Com certeza não tento mais tomar uma taça de vinho todos os dias, mas não parei”, afirmou.



