AMAPÁ — Quatro Cadastros Ambientais Rurais (CARs) estão ativos dentro da Reserva Biológica do Lago Piratuba, no leste do Amapá. Os registros abrangem 14,4 mil hectares, quase 4% da unidade de conservação, e dois deles foram criados e ativados em 2025.
A reserva é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e não é destinada à produção agropecuária. Ainda assim, cerca de 25 mil búfalos permanecem na área, inclusive em trechos do leito assoreado do rio Araguari. Os cadastros também alcançam terrenos próximos à foz, que deixou de existir.
O CAR é uma declaração feita por produtores rurais para buscar a regularização ambiental de um imóvel. No Amapá, cabe à Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) analisar e validar os registros para inclusão no sistema de consulta pública. No caso da reserva, os quatro cadastros não deveriam estar ativos.
O maior deles registra uma área de 8.093 hectares, com 98,45% de sobreposição à unidade de conservação. Não foi possível identificar, pelos dados disponíveis, as pessoas responsáveis pelos quatro cadastros.
Recomendações do Ministério Público
O Ministério Público Federal no Amapá recomendou que a Sema notifique os criadores para retirar os búfalos da reserva e cancele todos os CARs sobrepostos. A Procuradoria também recomendou que a Agência de Defesa Agropecuária do estado cobre licenciamento ambiental e um CAR regular antes de liberar as GTAs, guias necessárias para transportar os animais.
As guias permitem levar os búfalos a frigoríficos de Macapá, onde são abatidos e comercializados. A entrega de animais vindos da reserva a dois frigoríficos na capital continua, segundo as informações disponíveis.
O MPF firmou termos de ajustamento de conduta e acordos de não persecução penal com produtores que aceitaram retirar os animais. Contra três fazendeiros que resistem à saída, a Procuradoria entrou com ação na Justiça Federal, que já determinou a retirada dos búfalos.
Impacto na planície
Imagens históricas usadas pelo MPF mostram 173 km2 de assoreamento no leito do rio, área usada na criação. Ribeirinhos relatam que criadores utilizam drones para pulverizar veneno e destruir mata nativa na abertura de pastos.
A geóloga e pesquisadora Valdenira Ferreira dos Santos, professora da Universidade Federal do Amapá (Unifap), afirmou que os búfalos aceleraram o fechamento da foz do rio Araguari. Para ela, não é possível reverter o processo. A planície também sofre transformações naturais causadas pela quantidade de sedimentos carregada pelo rio Amazonas, mas a pesquisadora atribui aos animais a formação de determinadas valas e rasgos no terreno.
As valas chegam a 1 km de largura e desviaram o curso do Araguari. O rio deixou de desaguar no oceano Atlântico e passou a desembocar no rio Amazonas.
Produção e criadores
O negócio movimenta animais que custam entre R$ 5.000 e R$ 6.000 na ponta, de acordo com frigoríficos de Macapá. Uma empresa abate entre 1.000 e 1.200 animais por semana e tem capacidade máxima de 1.500 cabeças semanais.
O principal cliente informado por um dos frigoríficos é a Fazenda Alegria, de Salomão Alcolumbre Júnior, com remessa de cem búfalos por semana. A propriedade, próxima à reserva e às margens do rio Araguari, tem entre 40 mil e 50 mil animais, segundo pessoas familiarizadas com a rotina do imóvel. Salomão é primo do senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, que afirmou não participar do empreendimento. Salomão defende um diagnóstico científico independente sobre a influência de búfalos, hidrelétricas e da dinâmica natural na seca do rio.
Dentro da reserva, Aguinaldo Lopes da Silva, conhecido como Naldo Góes, mantém 6.000 búfalos, conforme documentos reunidos pelo MPF, e se recusa a deixar a área. Parentes do prefeito de Cutias (AP), Juscelino Rabelo Mourão Júnior (PL), também criam animais na unidade. Ao todo, cerca de 40 produtores atuam na criação de búfalos dentro e nos arredores da Rebio do Lago Piratuba.
O Governo do Amapá recebeu pedidos de esclarecimento em 22 de setembro e foi procurado novamente no dia seguinte, mas não respondeu.



