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Búfalos aceleram desvio do rio Araguari e secam antiga foz no Amapá

Criação de milhares de animais dentro e no entorno de reserva contribuiu para abrir valas e alterar o curso do rio, segundo órgãos e cientistas.

Búfalos aceleram desvio do rio Araguari e secam antiga foz no Amapá
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

O rio Araguari deixou de desaguar no oceano Atlântico e passou a desembocar no rio Amazonas. A mudança ocorreu em um intervalo de 15 anos e secou o trecho mais próximo da antiga foz, no leste do Amapá.

Cientistas, o Ministério Público Federal (MPF), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o plano de recursos hídricos do Governo do Amapá apontam a criação de búfalos como um dos fatores que aceleraram a transformação. Hidrelétricas e mudanças naturais na planície amazônica também são citadas.

A cidade mais próxima da Reserva Biológica do Lago Piratuba é Cutias, a 140 km de Macapá. Dentro da unidade de conservação e nas áreas próximas, existem cerca de 40 fazendas com criação de búfalos. A estimativa é de 25 mil animais dentro da reserva, embora a atividade não seja permitida no local.

Valas alteram a paisagem

O deslocamento dos animais, muitas vezes rente a cercas, abre ravinas na terra. A água amplia esses rasgos, que se transformam em valas com mais de 1 km de largura. A drenagem mudou a paisagem do Araguari, que passou a ter diversas ramificações a partir do leito principal. A vala de Uricurituba se tornou o principal caminho da água.

Imagens históricas usadas pelo MPF indicam que 173 km2 do leito do rio estão totalmente assoreados. A área é usada para a criação de búfalos, atividade que, segundo a Procuradoria, emprega pouco e exige poucos gastos com infraestrutura.

O fim da foz também encerrou a pororoca. A última ocorreu no fim de 2013. Moradores relatam maior salinização da água e mudanças no acesso às comunidades da reserva. O alargamento das valas provocou desbarrancamentos que atingiram casas, uma igreja, campo de futebol, escola e posto de saúde na comunidade do Pracuúba, vizinha da Fazenda Alegria.

Criadores dentro da reserva

Aguinaldo Lopes da Silva, conhecido como Naldo Góes, tem sete fazendas em seu nome e cria mais de 6.000 búfalos dentro da reserva, conforme dados de animais vacinados do Governo do Amapá. Em ação judicial, o MPF afirmou que ele cercou o leito seco do Araguari para ampliar a criação. Em maio, a Justiça determinou que os animais sejam retirados em um ano.

A família do prefeito de Cutias, Juscelino Rabelo Mourão Júnior (PL), também aparece entre os proprietários. O ICMBio autuou o prefeito e embargou áreas dentro da reserva por causa da construção de três imóveis de madeira sem autorização. Documentos reunidos pelo MPF registram a criação de búfalos por parentes dele em diversas fazendas.

Perto da linha demarcatória da reserva fica a Fazenda Alegria, de Salomão Alcolumbre Júnior, primo de primeiro grau do senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado. A propriedade abriga entre 40 mil e 50 mil búfalos, número que Salomão não contesta. O rebanho equivale a 16% do total do Amapá, estimado em 312 mil cabeças.

Salomão afirmou que a seca na foz não pode ser atribuída "de forma preponderante" aos búfalos. Ele citou as três hidrelétricas do rio e disse que duas começaram a operar no período em que a pororoca deixou de existir. Também defendeu um diagnóstico científico independente para avaliar o impacto dos búfalos, das hidrelétricas e da dinâmica natural da região.

Davi Alcolumbre declarou que não é proprietário, sócio ou coproprietário da Fazenda Alegria e que não cria búfalos no local. Segundo a nota, ele não possui participação, relação econômica ou ingerência sobre a propriedade.

Na comunidade Bom Jesus do Araguari, também chamada Tabaco, muitos moradores deixaram a região. Eliane Gomes da Silva, 41, funcionária da escola local, afirmou: "Aqui era animado. Agora está acabado".

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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