SÃO PAULO — Gilberto Vasconcelos, conhecido como Giba, foi preso em São Paulo em 1969 e torturado por dez dias e dez noites na Oban (Operação Bandeirante), na rua Tutoia. O militante passou por pau de arara, cadeira do dragão e choques em várias partes do corpo. Segundo seu relato, teve três paradas cardíacas durante as sessões.
Nascido em Delfinópolis, em 1946, Vasconcelos estudou em um colégio de padres italianos e se tornou ateu. Ainda adolescente, teve os primeiros conflitos com figuras de autoridade. Uma das punições recebidas no internato foi escrever 2.000 vezes a frase: "Devo respeitar meus superiores e não falar palavrão".
Aos 18 anos, emancipado pelo pai, viajou pelo Brasil em uma Kombi vendendo calçados e desceu o rio Araguaia de canoa. Em 1964, já apoiava Leonel Brizola e as forças legalistas. Durante o último ano do científico, em Uberaba, assistiu a uma palestra do ministro do STF Evandro Lins e Silva. A pergunta feita por ele — sobre a razão de pessoas ricas não serem presas — chamou a atenção de estudantes ligados à Polop, organização clandestina influenciada por ideias trotskistas.
Da militância à prisão
Ao ingressar no curso de direito, Giba entrou para a Polop e assumiu a presidência do diretório acadêmico. O grupo deu origem à Colina, organização que defendia a tomada das cidades a partir do campo e se inspirava na revolução cubana.
Ele participou do congresso clandestino da UNE em Ibiúna, que reuniu 800 estudantes e terminou com a chegada da polícia e a prisão dos participantes. Depois de ser levado ao Dops de Belo Horizonte, conseguiu fugir e voltou à faculdade.
A Colina se uniu a outros grupos para formar, no Rio de Janeiro, a VAR-Palmares, organização da qual também fizeram parte Dilma Rousseff e Carlos Lamarca. Uma das ações atribuídas ao grupo foi o assalto de US$ 2,5 milhões ao cofre de Adhemar de Barros.
Vasconcelos escolheu atuar no movimento operário, em vez da luta armada urbana, e afirma que nunca participou de um ato de violência. Em 1969, foi enviado a São Paulo. Ao perceber que seus contatos estavam desaparecendo, aproximou-se de um colega em um ponto na República. Os dois foram presos por policiais.
Na Oban, ele tentou preservar informações sobre a organização. Nos primeiros três dias, sustentou a mesma versão e reduziu sua importância no movimento. No quarto dia, informou um endereço onde não havia mais ninguém. A regra entre os militantes era resistir por pelo menos 24 horas, período considerado suficiente para que outras pessoas fugissem ou esvaziassem aparelhos.
No primeiro dia de prisão, Giba destruiu um papel com 17 nomes de integrantes de sua célula. Ele afirma que não entregou ninguém durante os dez dias de tortura e que as prisões na VAR-Palmares pararam nele. Também diz não culpar o colega que informou seu ponto, porque cada pessoa tem um limite de resistência à dor.
Vida após a prisão
Depois da Oban, Vasconcelos passou pelo Dops e foi levado ao presídio Tiradentes, onde permaneceu dois anos e meio. Durante o período, leu, teve aulas com outros presos, aprendeu a cozinhar e conviveu com mais de 15 pessoas em uma cela. Entre as amizades feitas na prisão estava a de Frei Tito.
Ao sair, concluiu os estudos e se tornou advogado. Casou-se com Sueli, com quem teve Beto, Ligia e Breno. Também foi presidente da OAB, atuou pela anistia e participou da fundação do PSDB ao lado de Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso.
Carlos Alberto Soares de Freitas, amigo de Vasconcelos na militância, foi morto pela ditadura e continua sem o corpo localizado. Anos depois, Giba deu os nomes Carlos Alberto e Breno a dois de seus filhos. Ao relembrar sua trajetória, resume sua experiência com uma palavra que ouviu da neta Bel: "você é um sobrevivente".



