MATO GROSSO — Os faróis de um motorhome revelaram os olhos de vários jacarés em uma lagoa às margens da Rodovia Transpantaneira. Aline Alves Tavares e Luiz Paulo Figueiredo Gouvea voltavam de Porto Jofre para Poconé quando viram diversos pontos luminosos na água, durante a noite.
O casal desceu do veículo para investigar e percebeu que o brilho vinha dos olhos dos animais. Dias antes, os dois tinham passado pelo mesmo trecho e observado muitos jacarés durante o dia, o que ajudou na identificação.
“Ficamos espantados e mais alertas para o nosso redor … nunca tínhamos tido uma experiência tão próxima assim com a natureza selvagem do Pantanal. De dia e de noite exatamente no mesmo lugar!”, disse Luiz Paulo, também chamado de Nino.
Como ocorre o brilho
O efeito é causado pelo tapetum lucidum, uma camada atrás da retina que funciona como um espelho. Formada por cristais de guanina, a estrutura reflete a luz dos faróis de volta para a fonte, produzindo o brilho percebido na escuridão.
“Essa estrutura é uma adaptação evolutiva para dar às células fotorreceptoras uma segunda chance de captar a luz”, explica Will, especialista citado na descrição do fenômeno.
O mecanismo melhora a visão em ambientes com pouca luminosidade e também aparece em gatos, cães, onças, veados, raposas e antas. Nos jacarés, o reflexo pode ter tons avermelhados ou alaranjados. Seres humanos não têm essa estrutura; em fotografias com flash, o tom vermelho nos olhos ocorre pela reflexão da luz nos vasos sanguíneos do fundo do olho.
Por que os animais se concentram
De acordo com o herpetólogo, a concentração de jacarés em determinados pontos do Pantanal está ligada à dependência dos corpos d’água. Na estiagem, a redução do nível de rios e lagoas faz com que os animais procurem poças e outros locais ainda abastecidos.
A baixa pressão de predadores sobre adultos e a capacidade reprodutiva também favorecem populações numerosas. Predominantemente noturnos, os jacarés costumam sair para caçar nesse período. Comem peixes, pequenos mamíferos, aves e outros animais que caem na água; entre os filhotes, a dieta inclui ainda invertebrados.
Durante o dia, por serem ectotérmicos, alternam momentos ao sol, na sombra e dentro da água para descansar e regular a temperatura corporal. Essa rotina explica a presença frequente dos animais perto da água em diferentes períodos.
Vida na estrada
Aline era funcionária pública concursada, e Nino trabalhava como engenheiro em uma multinacional e mantinha um restaurante em Resende (RJ). Depois de conhecerem uma feira de motorhomes em São Paulo, decidiram adotar esse estilo de vida.
Em três meses, compraram a casa sobre rodas. Aline deixou o cargo público, e Nino vendeu o restaurante. Há três anos, o casal vive na estrada, percorreu o litoral brasileiro e passou pelas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.
Os dois também conheceram Paraguai, Chile e Argentina e fizeram recentemente um mochilão pela Alemanha. Hoje, afirmam viver da monetização de conteúdos em diferentes plataformas e de parcerias com marcas.



