A contaminação por chumbo e cádmio deixada pela antiga fundição da Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac) ainda afeta trabalhadores e moradores de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. A fábrica funcionou por 33 anos, encerrou as atividades em dezembro de 1993 e deixou resíduos no antigo terreno industrial e em diferentes pontos da cidade.
A Cobrac começou a operar no município em 1960, então ligada à multinacional Peñarroya. O minério extraído em Boquira, no centro-sul da Bahia, era levado para Santo Amaro, onde passava por etapas de processamento para a produção de ligas de chumbo. No período de funcionamento, foram comercializadas cerca de 900 mil toneladas de liga e geradas aproximadamente 500 mil toneladas de escória, resíduo sólido com concentração de chumbo estimada entre 2% e 3%.
Trabalhadores expostos
Adailton Santos, hoje com 69 anos, foi contratado em maio de 1978 e trabalhou na refinaria, na sinterização e na chamada casa do forno. Diagnosticado com saturnismo, intoxicação provocada pela exposição ao chumbo, em 1993, ele associa à atividade sintomas como gosto metálico na boca, falta de apetite, insônia e fraqueza nas pernas.
Afastado pela doença, Adailton permaneceu formalmente empregado até 1999 e depois conseguiu a aposentadoria por invalidez. Ele afirma receber pouco mais de um salário mínimo, ter muitos gastos com medicamentos e esperar há anos por uma indenização. “Eu sou um vitimado por chumbo”, diz.
Antônio Firmo de Jesus, de 81 anos, também trabalhou na fundição. Em sua última passagem pela empresa, iniciada em 1979, ficou por pouco mais de dez anos. Ele atuava junto aos fornos e foi afastado da produção em 1990, depois que exames apontaram uma concentração de 80 µg/dL de chumbo no sangue. Hoje, relata tremores, reumatismo e limitações nos movimentos das mãos.
Segundo Antônio, os trabalhadores recebiam laudos e eram mandados para casa sem compreender a dimensão da exposição. Depois de passar por atendimento médico em Santo Amaro e Salvador, ele foi aposentado.
Resíduos espalhados pela cidade
Estudos reunidos pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) apontam que resíduos contendo chumbo e cádmio atingiram o solo, a água e o entorno da fábrica. Parte da escória foi usada no calçamento de ruas e em construções. Materiais empregados nos filtros das chaminés também foram levados para residências e reutilizados como tapetes e outros objetos.
Pesquisas realizadas ainda na década de 1970 identificaram níveis elevados de chumbo e cádmio na água do rio Subaé. Posteriormente, os metais foram encontrados em sedimentos e mariscos consumidos na região. Estudos também identificaram a presença desses elementos no solo, em plantas e em organismos ligados ao sistema do rio.
A engenheira química Bruna Tarciana Cavalcante Bezerra, coordenadora dos cursos de Engenharia da Unifanor Wyden (CE), afirma que a escória espalhada por ruas e quintais pode se fragmentar e integrar a poeira levantada pelo tráfego, por obras ou pelo vento. A chuva e a erosão também podem transportar partículas para terrenos mais baixos, sistemas de drenagem e cursos d’água.
De acordo com Alessandro Bertolino, engenheiro ambiental, doutor em gestão urbana e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), chumbo e cádmio não se degradam como determinados contaminantes orgânicos. A forma química e a mobilidade dos metais podem mudar, mas o problema não desaparece apenas com o tempo.
A delimitação das áreas afetadas exige análises atuais de solo, poeira, água e sedimentos. A retirada da escória visível, isoladamente, não seria suficiente. Os especialistas defendem a localização dos focos, a avaliação das concentrações e dos riscos e a definição de medidas de remoção, contenção ou tratamento e monitoramento.
Efeitos à saúde e mobilização
As primeiras pesquisas sobre a exposição da população começaram durante o funcionamento da fábrica. Fernando Carvalho, epidemiologista e professor da pós-graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), entrou nas investigações em 1976, inicialmente estudando pescadores da bacia do rio Subaé. Análises de cabelo já apontavam concentrações elevadas de chumbo e cádmio, e os estudos depois alcançaram trabalhadores, moradores e centenas de crianças.
A exposição ao chumbo ocorre principalmente pela inalação de partículas ou pela ingestão de água, alimentos, poeira e outros materiais contaminados. Segundo Álvaro Pulchinelli Jr., toxicologista e presidente do Conselho de Ex-Presidentes da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), a exposição prolongada pode atingir os sistemas nervoso e renal, provocar anemia e causar alterações cognitivas.
Nas crianças, a preocupação é maior por causa dos efeitos sobre o organismo em desenvolvimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que não há nível de exposição ao chumbo conhecido como livre de efeitos nocivos à saúde. Na intoxicação crônica, podem ocorrer dormência, formigamento, perda de força nos membros e alterações nos rins e no fígado.
Após o fim da exposição, a concentração de chumbo no sangue tende a cair, enquanto parte do metal pode permanecer armazenada nos ossos por períodos mais longos. Por isso, a avaliação de antigos trabalhadores e moradores depende do histórico de exposição, de exames anteriores e atuais e da documentação clínica.
A mobilização dos ex-funcionários ganhou organização em 2003, com a criação da Associação das Vítimas da Contaminação por Chumbo, Cádmio, Mercúrio e Outros Elementos Químicos (Avicca). A entidade passou a concentrar reivindicações por reparação, indenizações, direitos previdenciários e medidas relacionadas à contaminação ambiental.
Disputas judiciais
A tentativa de responsabilizar empresas e o poder público atravessa mais de seis décadas. Em 1961, um pedido de fechamento da fábrica por causa da poluição do rio Subaé foi rejeitado. Depois do encerramento, foram apresentadas ações para cobrar reparação ambiental, acompanhamento de saúde e indenizações, entre elas uma ação civil pública do Ministério Público Federal, em 2002, e uma ação coletiva da Avicca e da Defensoria Pública da Bahia, em 2011.
Em novembro de 2025, a Justiça baiana reconheceu direitos de diferentes grupos atingidos, incluindo antigos trabalhadores, pescadores, marisqueiras e moradores. A decisão estabeleceu indenizações e medidas de reparação e considerou o racismo ambiental na definição dos valores. A sentença recebeu recursos e está em grau de apelação no Tribunal de Justiça da Bahia.
A ação também envolve empresas relacionadas às mudanças societárias da operação. Em 1988, a Peñarroya se uniu à alemã Preussag na formação da Metaleurop. A partir de 1989, a operação brasileira passou à Plumbum Mineração e Metalurgia, ligada ao Grupo Trevo, permanecendo em atividade até o fechamento da fundição, em 1993. Entre as empresas incluídas estão Plumbum, Trevisa, Yara Brasil Fertilizantes, empresas do Grupo Trevo e Metaleurop.
Em dezembro de 2022, pesquisadores ligados à UFBA apresentaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos uma denúncia contra o Estado brasileiro, citando a demora na reparação às vítimas. Uma nova petição foi preparada com apoio da Avicca e participação da Defensoria Pública da Bahia.
A Yara Brasil afirmou que não adquiriu nem operou a Plumbum e que não realizou atividades de mineração de chumbo e cádmio em Santo Amaro ou Boquira. A empresa disse que, em 2000, adquiriu exclusivamente a Adubos Trevo, fabricante de fertilizantes que integrava o mesmo grupo econômico da Plumbum, e que discorda da decisão judicial.
A Plumbum Comércio e Representações de Produtos Minerais e Industriais Ltda afirmou que responde a ações relacionadas à contaminação e mantém, com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema), estudos sobre os rejeitos depositados na antiga área industrial. A empresa declarou que a sentença de novembro de 2025 não transitou em julgado e está sujeita a recursos. A Trevisa Investimentos S.A. e o Ministério Público Federal na Bahia não responderam aos questionamentos.



