SÃO PAULO — O Ministério da Fazenda abriu um processo administrativo contra a Blaze para apurar possíveis violações nas operações realizadas pelo advogado Willer Tomaz, investigado no escândalo do INSS. O caso envolve depósitos de R$ 325,3 milhões em apostas de blackjack, roleta e Baccarat. A empresa pode receber multa de até R$ 2 bilhões.
De acordo com os autos, Tomaz fez 2.145 depósitos na plataforma e recebeu R$ 180,3 milhões em 2.733 saques. A diferença entre os valores movimentados resultou em saldo negativo de R$ 145 milhões.
A Fazenda informou que não compartilha dados do processo porque a investigação ainda está em andamento. A defesa da Blaze não respondeu ao contato feito via WhatsApp às 15h21.
Verificação facial e criptomoedas
A Polícia Federal investiga as movimentações por suspeita de lavagem de dinheiro na operação Sem Desconto. Tomaz é investigado no caso sob a suspeita de atuar como “hub financeiro, patrimonial e logístico” em fraudes envolvendo descontos aplicados em aposentadorias e pensões do INSS.
A defesa do advogado nega a ocorrência de lavagem de dinheiro e afirma que os recursos passaram por sua própria conta bancária, de maneira transparente e rastreável.
Documentos do processo indicam que Tomaz apostava principalmente em jogos de cassino transmitidos ao vivo. Também teria recebido bônus para jogar o caça-níquel online “Crash and Mines”.
Segundo os autos, um gerente VIP da Blaze desativou a exigência de reconhecimento facial durante operações financeiras realizadas em janeiro de 2025, quando a plataforma passou a operar legalmente no Brasil. O gerente também ofereceu a possibilidade de movimentação por criptomoedas.
A retirada da verificação facial e o uso de criptoativos são apontados no processo como possíveis violações das regras de prevenção à lavagem de dinheiro do mercado regulado de apostas online. O uso desses recursos dificultaria a identificação do responsável pelas transações.
Limites para depósitos e saques
Tomaz teria movimentado valores acima do limite de saques, levando a plataforma a fazer ajustes para evitar o fracionamento dos envios. Em uma conversa descrita nos autos, ele pediu que o limite fosse elevado para R$ 500 mil por saque e reclamou do tempo de reconhecimento facial.
Em meados de setembro de 2025, Tomaz enviou uma imagem que indicava o estorno de vários saques de R$ 100 mil. O concierge da Blaze explicou que os provedores haviam reduzido os limites individuais para R$ 15 mil por razões regulatórias. Para o advogado, o limite seria ajustado para R$ 50 mil.
O gerente VIP ofereceu alternativas como acesso a jogos em fase de testes, cashback e bônus por depósitos. Tomaz pediu 50% de cashback sobre perdas anteriores e afirmou que duvidava que alguém desse mais lucro à plataforma do que ele, citando Neymar Júnior.
Um mês depois, o advogado indicou que pretendia parar de jogar porque estaria perdendo todo o dinheiro apostado. O gerente ofereceu um bônus para que continuasse na plataforma e propôs ajustes nos valores das operações.
Tomaz também perguntou se seria possível criar uma linha de crédito para reduzir a quantidade de transações bancárias. Nesse momento, o concierge sugeriu o uso de criptomoedas para permitir movimentações maiores e evitar limites.
A defesa afirma que Tomaz não aceitou a proposta de usar criptoativos e que o extrato registra apenas movimentações via Pix. Segundo os advogados, 1.335 pedidos de saque, no total de R$ 86,1 milhões, foram estornados.
A Blaze afirma que o cliente apresentou documentos sobre sua capacidade financeira, incluindo declaração de imposto de renda e comprovante de origem dos recursos. A empresa diz que essa documentação foi usada em procedimento de prevenção à lavagem de dinheiro conduzido por um serviço de pagamentos regulado, mas não foi anexada ao processo para preservar o sigilo fiscal de Tomaz.
Regras de comunicação ao Coaf
A lei de 2023 que regulamentou as apostas online tornou obrigatório o uso de tecnologia de reconhecimento facial. José Francisco Manssur, advogado especializado no setor, afirma que a ferramenta é usada para confirmar a identidade do responsável por depositar, apostar e sacar, além de apoiar medidas contra dependência, lavagem de dinheiro e apostas por menores de idade.
Portaria da Secretaria de Prêmios e Apostas, órgão subordinado à Fazenda, determina que as bets comuniquem ao Coaf operações com indícios de lavagem de dinheiro ou financiamento de terrorismo. A avaliação considera as partes envolvidas, os valores, a forma de realização, o meio de pagamento e a ausência de fundamento econômico ou legal.
A Blaze não informou se fez comunicações ao Coaf. O órgão produz relatórios a partir de avisos de setores como instituições financeiras, concessionárias de carros, galerias de arte e empresas de apostas. O delegado da Polícia Civil de Goiás Vytautas Zumas afirmou que transações muito altas deveriam ser reportadas. Sem a comunicação, o Coaf não produz os relatórios que podem ser entregues às autoridades penais.
Relação com Flávio Bolsonaro
O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, fez ao menos cinco viagens internacionais em 2025 acompanhado de Tomaz. Entre os destinos citados estão os Estados Unidos, a África do Sul, Portugal e França.
Em janeiro, os dois retornaram dos Estados Unidos em um jato do qual Tomaz era cotista junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Na semana passada, Flávio declarou que o advogado é um profissional respeitado e que não seria possível criminalizar a amizade entre os dois.



