A inteligência artificial generativa pode tornar a pesquisa mais rápida e abrangente, mas também facilitar a aceitação de respostas plausíveis sem verificação. A tecnologia, nesse sentido, repete um dilema já associado ao telefone: aproxima as pessoas de algo e, ao mesmo tempo, pode afastá-las de outra coisa.
A comparação parte de uma lembrança equivocada de Jack Clark sobre C.S. Lewis. Clark atribuiu ao escritor uma história em que um demônio relataria ao superior como o telefone afastava uma pessoa da reflexão e a aproximava do inferno. Lewis, porém, não escreveu que o telefone teria esse papel. Em As Cartas de um diabo a seu aprendiz, publicada em 1942, as cartas são dirigidas ao demônio aprendiz por seu tio, Fitafuso, e não há menção ao telefone.
O telefone como tecnologia de dois lados
Um episódio ocorrido em 1975 ajuda a ilustrar a ambivalência da tecnologia. Um incêndio em uma central telefônica no Lower East Side, em Manhattan, interrompeu mais de 100 mil linhas. O serviço foi restabelecido após cerca de três semanas.
Em entrevistas feitas depois da retomada, dois terços das pessoas afetadas disseram que a falta de telefone as deixou isoladas ou inquietas. Mais da metade afirmou ter sentido as duas coisas. Ao mesmo tempo, um terço relatou ter visitado outras pessoas pessoalmente com mais frequência, e a mesma proporção disse ter recebido mais visitas.
Para Robert Putnam, em Jogando Boliche Sozinho (2000), o telefone pode dar e tirar socialmente. O episódio mostrou que o aparelho parece reduzir a solidão e a convivência presencial ao mesmo tempo.
A inteligência artificial generativa apresenta uma tensão semelhante. Modelos de linguagem produzem relatórios rápidos, completos e com links úteis. Mas também entregam resumos elegantes, porém esquecíveis, além de informações inventadas com aparência de segurança.
Uma busca sobre uma frase atribuída a Lewis ilustra o problema. Ao pesquisar o trecho no Google, a ferramenta Gemini informou que ele vinha de As Cartas de um diabo a seu aprendiz. A atribuição estava errada: as palavras haviam sido escritas duas décadas depois de Screwtape.
A questão não é apenas se a IA conecta o usuário a informações. Ela também pode afastá-lo dos fatos quando a resposta é aceita sem investigação. A pesquisa superficial pode ser o início de uma compreensão mais profunda ou substituir esse processo.
A escolha depende do usuário. Checar informações pode ser tratado como uma etapa dispensável, enquanto ter uma resposta é confundido com encontrar a verdade. Nesse cenário, a desconfiança genérica da tecnologia não basta: o ponto central é manter a curiosidade sobre fatos específicos.



