O próximo presidente encontrará uma economia em desaceleração, com juros elevados, baixa produtividade, instabilidade internacional, endividamento das famílias e projeções de inflação acima da meta. Para os especialistas ouvidos, o principal desafio será criar condições para reduzir os juros sem ampliar as pressões sobre as contas públicas.
A taxa básica de juros chegou a 15% ao ano e está atualmente em 13,75% ao ano. O nível permanece entre os mais altos do mundo em termos reais. O Banco Central mantém a taxa elevada para conter as pressões inflacionárias e levar a inflação à meta de 3%.
Contas públicas e juros
Os economistas defendem o reequilíbrio das contas públicas como caminho para permitir uma redução sustentável dos juros. A proposta inclui a retomada de saldos positivos e a criação de superávits crescentes para conter a alta da dívida pública. A obtenção de resultados positivos de forma sustentada não ocorre desde 2014.
Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado Federal, afirmou que a recuperação dos superávits primários deve ser o eixo da resposta à desaceleração. Ele defendeu um programa gradual, com resultados desde o início e aprovação do Congresso.
Entre os temas que, na avaliação de Salto, deveriam ser discutidos estão vinculações, indexações, subsídios tributários e financeiros, supersalários, emendas parlamentares e a previdência dos militares. Para ele, o endividamento das famílias também está relacionado aos spreads bancários, que são as taxas finais cobradas pelos bancos acima da Selic.
Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, avaliou que o arcabouço fiscal ainda não eliminou as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas. A falta de uma sinalização clara sobre a estabilização da dívida aumenta a percepção de risco e contribui para manter os juros elevados.
Uma regra fiscal considerada crível, segundo Ataliba, poderia abrir espaço para reduzir os juros, aliviar o endividamento das famílias e melhorar as condições para o aumento da produtividade. “Isso gera um prêmio de risco muito grande na economia”, afirmou.
Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting e professora do Insper, defendeu reformas, inclusive constitucionais, para reduzir os gastos obrigatórios e sinalizar compromisso com as contas públicas. Na avaliação dela, essa sinalização poderia reduzir as expectativas de inflação, a volatilidade cambial e os juros.
A economista também afirmou que a evolução da economia depende de uma melhora no ambiente político. Para ela, a construção de uma base aliada no Congresso aumentaria a capacidade de implementação da agenda econômica do próximo ocupante do Palácio do Planalto.
Emprego, produtividade e comércio
Com a economia em desaceleração, Ataliba avaliou que o mercado de trabalho tende a apresentar perda de dinamismo ao longo de 2027. Felipe Salto também prevê aumento do desemprego em algum momento, mas considera possível atravessar o período com o reequilíbrio das contas públicas e o avanço da agenda fiscal.
A baixa produtividade é apontada como um problema estrutural. Ataliba afirmou que o crescimento real da renda depende do aumento da produtividade, e não do recurso ao endividamento. Zeina Latif defendeu que o consumo seja impulsionado por reformas, melhora do ambiente macroeconômico e ganhos de produtividade refletidos nos salários, em vez de estímulos artificiais.
Na política comercial, os especialistas avaliam que a ampliação das exportações e a abertura da economia podem elevar investimentos, produtividade e crescimento no longo prazo. O cenário inclui tensões provocadas pela guerra no Oriente Médio e pelo tarifaço imposto pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Salto defendeu a ampliação das exportações líquidas e a presença do Brasil nas negociações com as principais economias. Latif propôs reformular o Mercosul para dar mais flexibilidade aos países na negociação de acordos comerciais. O bloco é formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
A economista também defendeu a revisão de barreiras não tarifárias e de regras relacionadas à bitributação. Na avaliação dela, a redução de burocracias e a diversificação de parceiros comerciais ajudariam a enfrentar um ambiente internacional com mais riscos.



