O equilíbrio das contas públicas é apontado como o principal desafio econômico do próximo governo por economistas de diferentes correntes. A avaliação é que a dívida pública, em trajetória de alta, pressiona juros e inflação e reduz o espaço para investimentos, consumo e crescimento.
Em agosto deste ano, o endividamento do setor público, que inclui governo federal, Previdência, estados e municípios, chegou a R$ 11,05 trilhões. O valor equivale a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), soma dos bens e serviços produzidos pelo país. A dívida bruta é a maior registrada desde abril de 2021.
O resultado primário — diferença entre receitas e despesas do governo — está no centro do problema. Quando o governo gasta mais do que arrecada por um período prolongado, precisa tomar mais recursos. A percepção de que a dívida pode não ser sustentável tende a elevar a desconfiança dos investidores e o custo de financiamento.
Esse processo também pode pressionar a inflação e manter a Selic em nível elevado, encarecendo o crédito para famílias e empresas. Por isso, os economistas defendem uma trajetória mais sustentável para a dívida, com medidas capazes de reduzir o crescimento dos gastos e recuperar resultados primários positivos.
Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, afirmou que o presidente eleito precisará apresentar rapidamente as medidas de ajuste. “Se isso não acontecer até o primeiro dia de governo, representará um anticlímax”, disse. Para ele, a demora poderia deteriorar as expectativas, elevar o dólar e os juros futuros e conter o crédito bancário.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, defende um plano para reduzir o crescimento dos gastos obrigatórios e o volume de benefícios tributários. A proposta, segundo ele, começaria com um superávit de 0,3% do PIB no primeiro ano e chegaria a 2% do PIB até o final do mandato, em um período de quatro anos.
Produtividade, crédito e reformas
Além do ajuste fiscal, parte dos economistas destaca a necessidade de elevar a produtividade. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, citou cálculos da FGV segundo os quais a produtividade do trabalhador brasileiro cresceu, em média, 0,6% ao ano nos últimos 45 anos. Para ele, educação, formação profissional, crédito mais barato, mudanças regulatórias e investimentos em infraestrutura são parte da resposta.
Paulo Feldmann, professor da FEA-USP, também apontou o ambiente de negócios, os custos de transporte e energia e o baixo nível educacional como obstáculos à competitividade. Otto Nogami, professor do Insper, afirmou que o ajuste não deve comprometer investimentos essenciais e a capacidade produtiva futura.
O endividamento de famílias e empresas é outro ponto citado. André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI e professor licenciado da UnB, defende uma redução gradual das dívidas sem comprometer o crescimento. A estratégia, segundo ele, deveria combinar regulação do mercado de crédito, ganhos de produtividade e estímulo ao investimento privado.
André Perfeito, economista-chefe da Garantia Capital, destacou a dificuldade de reduzir os juros enquanto a demanda permanece aquecida e o mercado de trabalho segue forte. Alexandre Pires, professor do Ibmec SP, avaliou que os juros altos tornam menos atraentes os investimentos em capital e produtividade.
A reforma tributária e a desburocratização também aparecem entre as prioridades. André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, defende um sistema mais progressivo, com alívio para famílias de menor renda, pequenos e médios negócios e empresários com menos recursos. Ele também avalia que o ajuste fiscal deve ser gradual para evitar um processo recessivo.
Relações externas e investimento
As relações internacionais foram citadas por Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, e Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil. Os economistas mencionaram a necessidade de equilibrar as relações com Estados Unidos e China, preservando comércio, investimentos e oportunidades de crescimento.
Investimentos em transporte, energia e saneamento também foram apontados como necessários para ampliar a produção e reduzir custos. A avaliação é que o próximo governo precisará atrair capital sem diminuir a capacidade de investimento durante o ajuste fiscal.
Adriana Dupita, economista de mercados emergentes da Bloomberg Economics, afirmou que as despesas obrigatórias representam mais de 90% dos gastos totais e que cerca de metade desse montante está vinculada ao salário mínimo. Ela também citou o endividamento de famílias e empresas, os custos associados a eventos climáticos, o envelhecimento da população e os efeitos da inteligência artificial como temas que exigirão recursos e políticas públicas.
Patrícia Pelatieri, economista e diretora adjunta do Dieese, defendeu um ciclo de crescimento com empregos de qualidade, aumento dos salários e redução das desigualdades. Para ela, o país também precisa combinar de forma mais equilibrada as políticas monetária, fiscal e de desenvolvimento.
As avaliações convergem para a necessidade de enfrentar as contas públicas, mas divergem sobre a velocidade e o alcance do ajuste. Enquanto alguns economistas defendem medidas imediatas para interromper a alta da dívida, outros ressaltam que o esforço fiscal deve preservar investimentos, produtividade e crescimento de longo prazo.


