SÃO PAULO — A Natura estima que mudanças climáticas na Amazônia exponham R$ 584,2 milhões em vendas, o equivalente a 2,6% da receita líquida prevista para 2025. A avaliação será apresentada nesta terça-feira (6), em um relatório sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade.
A exposição está concentrada em produtos que utilizam castanha-do-pará, cupuaçu e murumuru. A empresa considera que as cadeias de fornecimento desses ingredientes são vulneráveis a eventos extremos, como alterações no regime de chuvas, estresse hídrico e efeitos do El Niño.
"Nos três casos, observaram-se impactos históricos na produtividade decorrentes de diferentes efeitos climáticos, em particular a dinâmica de chuva e o estresse hídrico, bem como os efeitos do El Niño", afirma o relatório. O fenômeno ocorre quando as águas do oceano Pacífico ficam mais quentes que a média e tende a provocar secas fortes na Amazônia.
Cenários de aquecimento e medidas da empresa
A Natura analisou três projeções: neutralidade de carbono, com aquecimento entre 1,4°C e 1,8°C; transição energética desordenada, entre 1,6°C e 2,7°C; e alto aquecimento, entre 2,6°C e 4,4°C. O Acordo de Paris tem como meta limitar a elevação da temperatura a 1,5°C, patamar considerado inalcançável no relatório.
Mesmo no cenário de neutralidade de carbono, a empresa identifica exposição alta no fornecimento de ingredientes da Amazônia em 2030. No cenário de alto aquecimento, a classificação passa a ser muito alta em 2050. A Natura ressalva que há incertezas sobre a dimensão exata dos impactos financeiros.
Entre as medidas previstas estão o armazenamento de castanhas para compensar possíveis quedas nas safras, a expansão das áreas de cultivo de cupuaçu e o aumento da produtividade. A companhia também pretende investir em uma nova agroindústria para processar murumuru.
Cinco instalações ligadas à Natura, ou 42% do total analisado, também apresentam alta exposição. O levantamento considerou fábricas próprias, centros de distribuição e unidades de fornecedores. Ondas de calor e tempestades podem colocar em risco de R$ 45,5 milhões a R$ 53,5 milhões em infraestrutura caso nenhuma ação preventiva seja adotada no curto prazo. A empresa afirma ter contratado R$ 6 bilhões em seguros.
"Pode ser necessário realizar investimentos para a melhoria das instalações, bem como arcar com despesas operacionais para manter a cobertura do seguro", diz o relatório.
O documento também aponta riscos relacionados aos preços de óleo de palma, etanol e papel. A Natura não calculou o valor exposto por causa da complexidade dos dados. As compras desses insumos totalizaram R$ 1,7 bilhão em 2025.
Divulgação climática e títulos verdes
O relatório é o primeiro da Natura a seguir o padrão internacional de divulgação de informações climáticas elaborado pelo Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade e traduzido pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade.
Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários havia determinado que companhias com ações negociadas na Bolsa de Valores do Brasil apresentassem documentos nesse formato a partir de 2027. Em maio, porém, a CVM retirou a exigência e tornou a divulgação voluntária. A decisão é questionada em uma ação civil pública no Rio de Janeiro, que pede a retomada da obrigação.
Silvia Vilas Boas, diretora financeira da Natura, afirma que a transparência sobre os efeitos do clima nas operações deve estimular empresas e órgãos reguladores a avançar. Lojas Renner e Vale foram as primeiras companhias abertas a publicar relatórios no novo padrão.
No último mês, a Natura informou a emissão de seus primeiros títulos de dívida verde, chamados nature bonds, no valor de R$ 700 milhões. A operação, coordenada pelo UBS BB, está vinculada a metas de uso de plástico sustentável nas embalagens das marcas Natura e Avon.
A companhia estabeleceu como objetivos alcançar 43% de plástico sustentável em 2028 e 46% em 2029. Em 2022, o índice era de 21%. A métrica considera o peso total do plástico usado na fabricação das embalagens.
A Natura foi fundada em 1969, tem receita de R$ 22,2 bilhões em 2025, sede em São Paulo e atuação em oito países. O principal concorrente informado pela empresa é O Boticário.



