Grandes investidores estão ampliando as compras de títulos do Tesouro dos Estados Unidos depois que os rendimentos subiram para os maiores níveis em décadas. A estratégia é garantir retornos fixos elevados antes que a onda de vendas que pressiona os papéis perca força.
Os fundos de títulos públicos americanos receberam quase US$ 14 bilhões (R$ 70,2 bilhões) desde o início de outubro. No terceiro trimestre, as entradas líquidas chegaram a US$ 59,3 bilhões (R$ 297 bilhões). Os aportes ainda representam uma pequena parcela do mercado de Treasuries, avaliado em US$ 32 trilhões (R$ 160,4 trilhões).
Rendimentos mais altos
O rendimento dos títulos de dez anos subiu 1,06 ponto percentual neste ano e alcançou 5,24% ao ano. Para gestores, esse nível aumentou a atratividade dos papéis, mesmo com a possibilidade de novas quedas de preço — movimento que elevaria ainda mais os juros pagos pelos títulos.
Vincent Mortier, diretor de investimentos da Amundi, disse que o patamar atual tem atraído novos compradores. A gestora administra 2,6 trilhões de euros (R$ 14,6 trilhões) em ativos e está aumentando gradualmente sua exposição aos títulos americanos nas carteiras em dólar.
A BlackRock informou que compra títulos do Tesouro de todos os prazos para garantir rendimentos. A gestora avalia que as expectativas de novos aumentos dos juros pelo Federal Reserve se tornaram potencialmente excessivas.
A procura também cresceu nos leilões recentes. Na última quarta-feira (7), foram oferecidos US$ 39 bilhões (R$ 195,5 bilhões) em títulos de dez anos. Os papéis foram vendidos poucas horas depois de o rendimento atingir 5,36%, o maior nível em 24 anos. A participação dos primary dealers, bancos que absorvem a parcela não comprada por outros investidores, foi a menor desde 2003.
Os leilões de títulos de três e 30 anos realizados na semana passada também tiveram demanda robusta. A expectativa de inflação média de 2,35% ao ano na próxima década reforça o interesse pelos títulos de dez anos. Descontada a inflação, o retorno projetado se aproxima de 3%, segundo Mortier.
Cautela com prazos longos
A Pimco considera que os títulos ainda podem perder valor, mas avalia que eles parecem atrativos em comparação com ações negociadas perto de máximas históricas. Dan Ivascyn, diretor de investimentos da gestora, afirmou que os juros estão mais interessantes diante das avaliações das ações e dos spreads de crédito estreitos. A Pimco administra US$ 2,3 trilhões (R$ 11,53 trilhões) em ativos.
Greg Peters, codiretor de investimentos da PGIM Credit, disse que um rendimento acima de 5% para um título americano de dez anos é uma alternativa para manter no médio e longo prazo. Mortier, por sua vez, considera mais provável uma queda dos rendimentos a partir dos níveis atuais do que uma alta adicional, caso a aceleração recente da inflação perca força.
A cautela é maior entre os papéis de vencimento longo. Investidores temem que o Federal Reserve volte a elevar os juros para conter a inflação. Peters afirmou não ter certeza sobre a compra de títulos de 30 anos.
Vishal Khanduja, da Morgan Stanley Investment Management, classificou como atraentes os títulos com vencimento de até dez anos, mas demonstrou menor convicção em relação aos papéis de 20 e 30 anos. Ele também alertou que, quanto maior o prazo, mais os fatores de oferta e demanda influenciam a formação dos preços. Entre esses fatores está a decisão do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, de ampliar as recompras de títulos da dívida pública dos Estados Unidos.



