Terça-feira, 8 de setembro de 2026
Dólar R$ 5,13 · Euro R$ 5,95 · Ibovespa 185.147 +0,00%
A economia explicada todos os dias
Política

AfD vence em Saxônia-Anhalt e rompe barreira política alemã do pós-guerra

Para Marcus Böick, vitória da extrema direita mostra que o isolamento partidário contra a AfD perdeu eficácia na Alemanha.

AfD vence em Saxônia-Anhalt e rompe barreira política alemã do pós-guerra
Foto: Fabrizio Bensch/Reuters

A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) em Saxônia-Anhalt colocou a extrema direita diante da possibilidade de formar um governo regional e abriu uma situação sem precedente para o sistema político alemão do pós-guerra, segundo Marcus Böick, professor associado de História Alemã Moderna da Universidade de Cambridge.

Na eleição, a AfD obteve quase 44% dos votos. Em Aschersleben, cidade natal de Böick, o partido chegou a cerca de 55%. O professor afirmou que o resultado ficou no limite superior das expectativas, mas ainda não está definido como será formado o governo, já que a legenda não tem maioria e os demais partidos também não.

“Após quase 80 anos, esse sistema já não funciona”, disse Böick, ao avaliar o modelo político criado na Alemanha Ocidental depois de 1949. Segundo ele, esse arranjo foi desenhado para impedir a ascensão de um partido fascista ou nazista e inclui mecanismos de freios e contrapesos para limitar o poder.

Isolamento perdeu força

A Alemanha mantém o Brandmauer, mecanismo que impede a cooperação dos partidos tradicionais com a AfD. A regra está ligada ao legado do nazismo, aos crimes cometidos no período e ao Holocausto. Böick compara a situação com a Áustria, onde, apesar da participação na expansão nazista, não existe o mesmo cordão sanitário político.

Na avaliação do professor, os partidos alemães conseguiram usar essa barreira por muito tempo, mas a eleição em Saxônia-Anhalt mostrou que eles ficaram em posição minoritária diante da AfD. O argumento de defesa da democracia, repetido em campanhas anteriores, também perdeu força. Para Böick, a legenda pode responder que o voto popular em seu favor também é uma expressão democrática.

O resultado ocorre em meio ao desgaste dos partidos tradicionais, incluindo a CDU e o SPD. Böick citou a avaliação de Friedrich Merz de que a decadência já atingia o SPD e agora também alcançava a CDU. Para o professor, Merz perdeu apoio ao fazer acordos com os sociais-democratas, aumentar impostos, gastar dinheiro e não enfrentar a imigração de forma satisfatória.

A AfD explora esse cenário com a promessa de cumprir o que anuncia. Ulrich Siegmund e Alice Weidel também mencionaram 2029, ano das próximas eleições federais. A legenda já é a força política mais forte no âmbito federal, mas o cordão sanitário impediu que formasse um governo na Turíngia há dois anos.

Pertencimento e nostalgia

Böick atribui parte do desempenho da AfD à capacidade de criar uma sensação de pertencimento entre os eleitores. A legenda promove torneios de futebol, eventos comunitários e comícios em pequenos vilarejos, enquanto outros partidos e, no leste, até as igrejas têm dificuldade para manter presença local.

O professor descreveu as áreas rurais como regiões marcadas por retração econômica e social nos últimos 20, 30 anos. Cinemas fecharam, estações ferroviárias foram desativadas, assim como escolas e hospitais. Nesse ambiente, a AfD organiza eventos que remetem a um passado apresentado como glorioso e oferece a percepção de que alguém se importa com os moradores.

A campanha também combina diferentes referências históricas nas redes sociais: a Alemanha Oriental, o Império Alemão e a imagem de uma nação forte e confiante. Böick afirmou que essa combinação não precisa ser racional para funcionar, pois está ligada a sentimentos e à busca por uma comunidade perdida.

O professor disse que a AfD escolheu um candidato carismático, articulado e com boa aparência, diferente de figuras anteriores associadas à legenda. A estratégia, segundo ele, ajudou o partido a se apresentar como uma força capaz de iniciar mudanças, sobretudo nas áreas rurais.

Böick também separou os eleitores da AfD dos grupos neonazistas e pós-nazistas presentes na estrutura partidária. Para ele, embora existam pessoas com esse histórico entre os colaboradores de Siegmund, a sociedade mais ampla alcançada pela legenda não é movida apenas pelo fascismo, pelo nacional-socialismo ou pela nostalgia.

A lembrança da Alemanha Oriental também mudou ao longo do tempo. No fim da década de 1980, muitos moradores rejeitavam aquele regime. Depois que os efeitos do capitalismo atingiram a região, porém, parte da população passou a recordar o período pela existência de emprego e por um senso de comunidade mais forte. A saída de moradores e o aumento da competição individual contribuíram para a perda desse sentimento, segundo Böick.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.