Responsáveis e compradores da criptomoeda B22, ativo que promoveu Flávio Bolsonaro (PL), passaram a trocar cobranças sobre prejuízos em um grupo de WhatsApp após o lançamento do token na terça-feira (6). A discussão ocorreu enquanto a cotação oscilava e a equipe alterava a comunicação do projeto.
Kevim Flores, um dos principais divulgadores da iniciativa, pressionou participantes a sustentar o preço da moeda e relatou decisões sobre o negócio. Entre elas estava a suspensão temporária do discurso político até a eleição.
A B22 é uma memecoin, categoria de criptomoeda associada a memes e tendências da internet. O projeto oferecia tokens a pessoas que divulgassem conteúdos favoráveis ao voto em Flávio e afirmava que destinaria parte dos recursos a crianças de Uganda, em parceria com o Hypers Kids Africa, grupo com 12,9 milhões de seguidores no Instagram.
Mudança na comunicação
Depois da reação negativa, o site retirou os pedidos de voto e anunciou a suspensão da remuneração por compartilhamentos favoráveis a candidatos bolsonaristas. A comunicação passou a ser apresentada como exclusivamente social até 25 de outubro.
Flores disse que a alteração ocorreu porque seu interlocutor no grupo de Uganda resistia à continuidade dos vídeos políticos. Em áudio enviado ao grupo, afirmou que o projeto deixaria de tratar de política até a data prevista e que a estratégia poderia ser retomada depois, dependendo do resultado eleitoral.
O grupo de Uganda apagou um vídeo de divulgação, informou que devolveria os 120 milhões de tokens recebidos pela parceria e pediu desculpas ao público brasileiro nesta sexta-feira (9). A organização disse que pretendia concluir a construção de uma casa e que não queria envolvimento com partidos.
A ministra Estela Aranha, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), determinou a derrubada do site da B22 nesta sexta-feira (9). A campanha de Lula (PT) havia incluído o token em uma ação de investigação judicial eleitoral contra Flávio no tribunal, com alegações de abuso de poder econômico e pedidos para bloquear a página e impedir recompensas por propaganda eleitoral.
Dúvidas entre compradores
Durante a sexta-feira, participantes cobraram explicações sobre o futuro do projeto e sobre o cumprimento do cronograma. Um comprador disse ter vendido seus tokens com prejuízo de US$ 350 porque acreditava que a iniciativa seria abandonada. Um administrador afirmou acumular mais de US$ 1.000 em perdas, sem vender seus ativos.
Flores negou que abandonaria a B22 e atribuiu a interpretação ao participante. Às 20h23, ele restringiu o envio de mensagens no grupo aos administradores. Depois, participantes questionaram se as divulgações continuariam e se o projeto havia mudado de direção. Os administradores negaram o encerramento e disseram que uma publicação se referia à conclusão da casa das crianças em Uganda.
A campanha de Flávio negou relação com a página e com a venda de criptomoedas e anunciou medidas judiciais para derrubar o site. A B22 afirma não ter vínculo com políticos, partidos ou campanhas.
Conversa citada com produtor
Em um áudio, Flores relatou uma conversa com Nahuel Medina, produtor e braço-direito de Pablo Marçal, que participa da campanha de Flávio. Flores disse que Medina teria recomendado manter o site no ar caso estivesse tranquilo com o projeto.
Medina negou conhecer Flores ou ter conversado com ele pelo WhatsApp. Confirmou apenas que participou de uma live após pedidos de espectadores que apresentavam o perfil como um grande projeto da África. “Pablo não falou nada disso, nem ele nem eu sabíamos desse cara nem dessa situação”, afirmou Medina.
Flores e Marçal não responderam aos pedidos de manifestação. A equipe de Flávio informou, no fim da noite de sexta-feira, que a Justiça Federal recebeu uma notícia-crime apresentada pela defesa do senador contra os responsáveis pelo projeto. A acusação envolve possíveis fraudes com ativos virtuais e formação de organização criminosa. A juíza Marilaine Almeida Santos estabeleceu prazo de cinco dias para o Ministério Público Federal informar se deve ser aberta uma investigação.


