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Política

Paul Freston vê disputa religiosa em fake news sobre Nossa Senhora Aparecida

Sociólogo afirma que desinformação contra Flávio Bolsonaro reproduz táticas usadas pela direita e expõe disputa entre católicos e evangélicos.

Paul Freston vê disputa religiosa em fake news sobre Nossa Senhora Aparecida
Foto: Gabriela Biló/Folhapress

A circulação de uma informação falsa sobre Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida expôs, para o sociólogo Paul Freston, uma disputa antiga entre católicos e evangélicos na política brasileira. A mensagem afirma que o senador pretende retomar um projeto para retirar a santa da condição de padroeira do Brasil.

Para Freston, a situação inverte estratégias usadas pela direita em eleições anteriores. “A direita está provando do próprio veneno”, disse. O sociólogo é inglês naturalizado brasileiro e é considerado pioneiro nos estudos sobre pentecostalismo e política.

Disputa por espaço religioso

Freston relaciona o episódio à crítica evangélica tradicional à idolatria. Nossa Senhora Aparecida, segundo ele, representa o símbolo máximo do catolicismo e não é compartilhada pelo protestantismo. Nos setores mais extremos, a discussão também pode envolver comentários racistas sobre a imagem negra da santa.

O sociólogo afirma que a rivalidade entre católicos e evangélicos existe desde a implantação das primeiras igrejas evangélicas. Em alguns momentos, porém, a concorrência principal das igrejas pentecostais passou a ser associada aos cultos afro.

Na avaliação de Freston, o episódio atual envolve uma disputa para definir a presença das religiões na vida pública. A Assembleia de Deus, afirma, mudou de posição nos anos 1980: deixou a orientação de que o fiel não deveria participar da política e passou a defender que o “irmão vota em irmão”.

A declaração de Flávio Bolsonaro de que o Brasil seria do Senhor Jesus Cristo também é interpretada pelo sociólogo como uma tentativa de afirmar a centralidade evangélica na esfera pública. Para Freston, a frase pode ser entendida como uma fórmula pentecostal, embora não signifique necessariamente a implantação de uma teocracia ou a restrição de direitos civis de não cristãos.

Fake news e eleições

Freston lembra que a falsa acusação de que Lula (PT) fecharia igrejas foi repetida em todas as eleições com participação do petista. A primeira circulação ocorreu em 1989, quando também ficaram mais visíveis os atritos entre setores católicos e um bloco evangélico ainda em formação.

Em entrevista realizada dois anos depois, o pastor José Wellington Bezerra da Costa afirmou ter recebido informações de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) preparava um esquema para tornar o catolicismo a única religião oficial. Freston diz que nunca houve indício disso.

O sociólogo também cita um boato semelhante durante a Assembleia Constituinte, em 1986, sobre a restauração de uma religião oficial católica. Para ele, a desinformação sobre Aparecida mostra a direita sendo atingida por um recurso que ajudou a difundir.

Freston avalia que a exploração do tema pode ser uma estratégia para ampliar o voto católico, em vez de buscar diretamente o eleitorado evangélico. Em 2002 e 2006, Lula obteve 2 em cada 3 votos evangélicos no segundo turno. Hoje, segundo o sociólogo, sua média é de 30% nesse segmento.

Relação com evangélicos

Na avaliação de Freston, o bolsonarismo construiu apoio maciço entre evangélicos. Ele descreve esse grupo como predominantemente mais pobre, feminino e não branco, enquanto identifica como mais propenso ao voto em Bolsonaro o eleitor mais rico, branco e homem.

O sociólogo atribui parte da dificuldade de aproximação do campo progressista a falhas históricas do PT e da esquerda. Para ele, não basta dialogar com evangélicos de forma distante ou tratá-los com indiferença. Também considera equivocada a tentativa de colocar a primeira-dama Janja na linha de frente dessa comunicação.

Sobre o menor entusiasmo em torno de Flávio Bolsonaro nas igrejas em 2026, Freston menciona uma combinação entre ressalvas ao candidato e uma possível reavaliação do comportamento político após 2022. Ele também afirma que acusações e escândalos podem ter reduzido sua aceitação em comparação com a de seu pai.

Na avaliação do sociólogo, o episódio de Aparecida e as críticas à CNBB enfraqueceram a capacidade de Flávio Bolsonaro de circular entre os mundos católico e evangélico. Ele classifica a declaração sobre o Brasil como oportunismo eleitoral e diz que uma medida de caráter religioso enfrentaria oposição de evangélicos e não evangélicos.

Paul Freston é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University. Sua tese de doutorado, lançada em 1993 pela Unicamp, será relançada em dezembro pelo Instituto de Estudos da Religião.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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