A circulação de uma informação falsa sobre Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida expôs, para o sociólogo Paul Freston, uma disputa antiga entre católicos e evangélicos na política brasileira. A mensagem afirma que o senador pretende retomar um projeto para retirar a santa da condição de padroeira do Brasil.
Para Freston, a situação inverte estratégias usadas pela direita em eleições anteriores. “A direita está provando do próprio veneno”, disse. O sociólogo é inglês naturalizado brasileiro e é considerado pioneiro nos estudos sobre pentecostalismo e política.
Disputa por espaço religioso
Freston relaciona o episódio à crítica evangélica tradicional à idolatria. Nossa Senhora Aparecida, segundo ele, representa o símbolo máximo do catolicismo e não é compartilhada pelo protestantismo. Nos setores mais extremos, a discussão também pode envolver comentários racistas sobre a imagem negra da santa.
O sociólogo afirma que a rivalidade entre católicos e evangélicos existe desde a implantação das primeiras igrejas evangélicas. Em alguns momentos, porém, a concorrência principal das igrejas pentecostais passou a ser associada aos cultos afro.
Na avaliação de Freston, o episódio atual envolve uma disputa para definir a presença das religiões na vida pública. A Assembleia de Deus, afirma, mudou de posição nos anos 1980: deixou a orientação de que o fiel não deveria participar da política e passou a defender que o “irmão vota em irmão”.
A declaração de Flávio Bolsonaro de que o Brasil seria do Senhor Jesus Cristo também é interpretada pelo sociólogo como uma tentativa de afirmar a centralidade evangélica na esfera pública. Para Freston, a frase pode ser entendida como uma fórmula pentecostal, embora não signifique necessariamente a implantação de uma teocracia ou a restrição de direitos civis de não cristãos.
Fake news e eleições
Freston lembra que a falsa acusação de que Lula (PT) fecharia igrejas foi repetida em todas as eleições com participação do petista. A primeira circulação ocorreu em 1989, quando também ficaram mais visíveis os atritos entre setores católicos e um bloco evangélico ainda em formação.
Em entrevista realizada dois anos depois, o pastor José Wellington Bezerra da Costa afirmou ter recebido informações de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) preparava um esquema para tornar o catolicismo a única religião oficial. Freston diz que nunca houve indício disso.
O sociólogo também cita um boato semelhante durante a Assembleia Constituinte, em 1986, sobre a restauração de uma religião oficial católica. Para ele, a desinformação sobre Aparecida mostra a direita sendo atingida por um recurso que ajudou a difundir.
Freston avalia que a exploração do tema pode ser uma estratégia para ampliar o voto católico, em vez de buscar diretamente o eleitorado evangélico. Em 2002 e 2006, Lula obteve 2 em cada 3 votos evangélicos no segundo turno. Hoje, segundo o sociólogo, sua média é de 30% nesse segmento.
Relação com evangélicos
Na avaliação de Freston, o bolsonarismo construiu apoio maciço entre evangélicos. Ele descreve esse grupo como predominantemente mais pobre, feminino e não branco, enquanto identifica como mais propenso ao voto em Bolsonaro o eleitor mais rico, branco e homem.
O sociólogo atribui parte da dificuldade de aproximação do campo progressista a falhas históricas do PT e da esquerda. Para ele, não basta dialogar com evangélicos de forma distante ou tratá-los com indiferença. Também considera equivocada a tentativa de colocar a primeira-dama Janja na linha de frente dessa comunicação.
Sobre o menor entusiasmo em torno de Flávio Bolsonaro nas igrejas em 2026, Freston menciona uma combinação entre ressalvas ao candidato e uma possível reavaliação do comportamento político após 2022. Ele também afirma que acusações e escândalos podem ter reduzido sua aceitação em comparação com a de seu pai.
Na avaliação do sociólogo, o episódio de Aparecida e as críticas à CNBB enfraqueceram a capacidade de Flávio Bolsonaro de circular entre os mundos católico e evangélico. Ele classifica a declaração sobre o Brasil como oportunismo eleitoral e diz que uma medida de caráter religioso enfrentaria oposição de evangélicos e não evangélicos.
Paul Freston é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University. Sua tese de doutorado, lançada em 1993 pela Unicamp, será relançada em dezembro pelo Instituto de Estudos da Religião.



