SÃO PAULO — A velocidade média dos veículos em São Paulo pode diminuir 14,8% durante tempestades severas, segundo um estudo da Geotab. O resultado foi o pior entre as metrópoles da América Latina analisadas pela empresa. Considerando episódios de chuva em geral, a redução média foi de 3,2%.
A pesquisa avaliou mais de 3 milhões de deslocamentos feitos por cerca de 10 mil veículos monitorados na capital paulista entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026. A análise considerou aproximadamente 10 mil trechos de ruas, avenidas e rodovias urbanas localizados em uma área de até 8 quilômetros do centro da cidade. A Geotab trabalha com monitoramento e gestão de frotas comerciais, incluindo veículos de logística, entregas e prestação de serviços.
A queda registrada em São Paulo superou a observada em Buenos Aires, de 10,4%, e na Cidade do México, de 7,1%. Os maiores impactos sobre a fluidez ocorreram em corredores como o Corredor Norte-Sul, a Radial Leste e as marginais Tietê e Pinheiros.
Frota e congestionamentos
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito indicam que a frota da capital chegou neste ano a cerca de 10,1 milhões de veículos, o maior nível da série histórica. Em 2006, eram 4,9 milhões — crescimento de aproximadamente 106% em duas décadas.
A Companhia de Engenharia de Tráfego também identificou uma associação entre chuva e lentidão. Dos 20 maiores índices de congestionamento registrados na cidade neste ano, 13 ocorreram em dias com chuva.
Para Marcio Fugisava, gerente de expansão de mercado da Geotab, a combinação entre a quantidade de veículos, alagamentos e desvios improvisados reduz ainda mais a capacidade das vias. Ele também relaciona o aumento da circulação ao crescimento do comércio eletrônico e dos serviços de entrega.
Flaminio Fichmann, assessor da presidência do Instituto de Engenharia e especialista em mobilidade, afirmou que a chuva expõe problemas já existentes no sistema viário. Em dias chuvosos, parte da população que normalmente usa transporte coletivo opta pelo carro particular, enquanto o espaço disponível para circulação permanece o mesmo.
O urbanista também citou alagamentos, quedas de árvores, buracos, falhas semafóricas e acidentes entre os fatores que agravam a lentidão. Com a pista mais lisa e maior distância de frenagem, aumentam as possibilidades de colisões e interrupções no tráfego.
“São Paulo tem um estoque de automóveis que não é utilizado cotidianamente”, disse Fichmann. Segundo ele, a migração de passageiros de ônibus, trens e metrô para motocicletas também contribuiu para o aumento da frota e dos acidentes.
Medidas apontadas
Fichmann defende investimentos em corredores de ônibus e sistemas de BRT, além de obras de drenagem em áreas historicamente sujeitas a alagamentos. Entre as medidas citadas estão a ampliação de áreas permeáveis, o plantio de árvores e a manutenção de bueiros, bocas de lobo e galerias.
O especialista também considera necessário tornar o transporte público mais eficiente, confortável e confiável, para reduzir a dependência do transporte individual. Para Fugisava, o compartilhamento de dados entre empresas e poder público pode ajudar a antecipar congestionamentos, acidentes e pontos de alagamento.
“A captação de dados atualizados é o mais importante”, afirmou o gerente da Geotab. A integração entre informações sobre velocidade média, acidentes e previsão do tempo, segundo ele, pode orientar motoristas e permitir a adoção de alternativas antes da formação dos problemas.
Ações da prefeitura
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que os registros de alagamentos caíram 23% entre 2023 e 2025, de 822 para 632 ocorrências. A administração afirmou que os dados de 2026 só serão consolidados depois do encerramento do ano.
A gestão de Ricardo Nunes (MDB) disse manter monitoramento, prevenção e combate a alagamentos por meio do Plano de Prevenção às Chuvas, que substituiu o antigo Plano Preventivo Chuvas de Verão e passou a funcionar durante todo o ano.
Segundo a prefeitura, entre 2021 e setembro de 2026 foram investidos R$ 11 bilhões em obras e serviços de drenagem. No período, foram entregues nove reservatórios para contenção de enchentes — seis piscinões e três pôlderes — e outros nove estavam em construção.
A administração informou ainda ter concluído 216 intervenções no sistema de drenagem, com a recuperação de mais de 60 quilômetros de galerias e córregos. Até agosto deste ano, foram retiradas quase 134 mil toneladas de detritos dos córregos e feita a limpeza de mais de 131 mil bocas de lobo, poços de visita e galerias.
A Operação Chuvas da CET mantém o monitoramento dos principais corredores viários da capital. De acordo com a prefeitura, as equipes avaliam as condições de circulação para definir bloqueios, desvios ou interdições temporárias durante os temporais.



