LONDRES — O número de empresas de biotecnologia que buscam abrir capital por meio de fusões reversas aumentou quase seis vezes neste ano. Vinte e três companhias anunciaram operações desse tipo, contra quatro no ano passado, segundo o banco de investimento William Blair.
A estratégia permite que uma empresa privada se una a uma companhia já listada em Bolsa e, assim, acelere o acesso ao mercado de ações em relação ao processo tradicional de IPO. No setor de biotecnologia, as empresas listadas usadas nessas operações frequentemente enfrentaram problemas relevantes, como o fracasso de seu principal candidato a medicamento.
Operações e financiamento
A alta das fusões reversas ocorre ao mesmo tempo em que o mercado tradicional de ofertas públicas iniciais se recupera. Os IPOs de biotecnologia também chegaram a 23 neste ano, ante 12 em 2025. Durante a pandemia, houve 51 IPOs do setor em 2020 e 70 em 2021, segundo dados da FactSet. Depois, o mercado perdeu força.
Esse ciclo deixou mais empresas listadas disponíveis para fusões, enquanto aumentou o número de investidores especializados dispostos a financiar as operações. Para Brian Rosenzweig, sócio de mercado de capitais da Covington, a percepção de que a fusão reversa seria uma alternativa inferior mudou com o amadurecimento desse mercado.
Um dos alvos foi a Cyclerion Therapeutics, que abriu capital em 2019. Depois de não obter sucesso com um tratamento para anemia falciforme, a empresa tentou migrar para outras áreas. No mês passado, concluiu uma fusão reversa com a Korsana Biosciences, especializada em doenças neurodegenerativas. Os investidores da Korsana passaram a deter a maioria do grupo formado, e a empresa levantou US$ 380 milhões com grupos como Fairmount e RTW Investments.
Outras operações envolveram a Caldera Therapeutics e a Obsidian Therapeutics. Em julho, a Caldera captou US$ 278 milhões com investidores como Bain Capital Life Sciences, Atlas Venture e Janus Henderson para se fundir com a Synlogic. Um mês depois, a Obsidian levantou US$ 350 milhões, entre outros investidores, da Atlas e da Janus Henderson para se unir à Galera.
Rapidez e previsibilidade
Advogados e executivos do setor afirmam que algumas empresas escolheram as fusões reversas mesmo com a retomada dos IPOs por causa da rapidez e da maior previsibilidade do financiamento. Em uma listagem tradicional, a demanda dos investidores e a definição do preço podem variar. Na fusão reversa, a avaliação e o financiamento podem ser combinados antes da conclusão do negócio.
Rita Sobral, sócia da Cooley que já assessorou empresas de biotecnologia nessas operações, disse que o acordo com financiamento garantido reduz a dependência de uma janela disponível para IPO e permite fixar a avaliação previamente.
Jonathan Violin, presidente-executivo da Korsana, afirmou que a solidez da empresa, da ciência e da capitalização é mais importante do que o caminho escolhido para a abertura de capital. A recuperação dos IPOs tradicionais, por sua vez, voltou a oferecer uma alternativa às empresas do setor. Entre as listagens recentes está a Alamar Biosciences, cujas ações subiram cerca de 15% desde a estreia em abril.



