ADIS ABEBA — Os 195 Estados-membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) ainda não chegaram a um acordo sobre as datas dos próximos relatórios científicos do órgão. A decisão será discutida na reunião plenária marcada para a próxima segunda-feira (12), na capital da Etiópia, após quase três anos de debates.
O impasse pode deixar as negociações climáticas da ONU de novembro de 2028 sem uma nova avaliação consolidada sobre o aquecimento do planeta. Os governos deverão analisar, nessa ocasião, o progresso em relação às metas do Acordo de Paris, firmado em 2015.
As avaliações do IPCC são usadas como base para os principais acordos climáticos das Nações Unidas. O próximo ciclo terá três relatórios: um sobre a dimensão e as causas das mudanças climáticas; outro sobre vulnerabilidades e adaptação; e um terceiro sobre opções para evitar o agravamento do aquecimento.
Os cientistas que coordenam os grupos responsáveis propuseram que os três documentos sejam aprovados até setembro de 2028. Robert Vautard, copresidente francês do IPCC, afirmou que o cronograma foi elaborado com base na carga de trabalho prevista, e não na data da cúpula da ONU. Segundo ele, os calendários costumam ser aprovados em "questão de minutos".
Países como Índia, Quênia, Arábia Saudita, Rússia e China defendem mais tempo para a elaboração. Os opositores do plano querem adiar o segundo e o terceiro relatórios para 2029. Eles argumentam que será necessário analisar milhares de estudos, negociar a redação e concluir revisões feitas por especialistas e governos.
Divergências sobre inclusão e prazos
Países em desenvolvimento afirmam que suas perspectivas aparecem de forma insuficiente nas avaliações porque há poucos especialistas dessas nações e porque seus pesquisadores têm menos recursos para publicar estudos revisados por pares. Joyce Kimutai, cientista que representa o Quênia no IPCC, disse que, se o processo avançar rápido demais, "ele não será inclusivo".
O órgão afirma que está adotando medidas para ampliar a participação. Pela primeira vez, os próximos relatórios deverão incluir capítulos sobre financiamento climático e sobre formas de lidar com danos irreversíveis causados a alguns países, segundo Jim Skea, presidente do IPCC.
Os países favoráveis à publicação antes de 2028 afirmam que, sem os novos documentos, os negociadores terão de usar relatórios publicados em 2021 e 2022. Em 2024, as temperaturas globais ficaram, pela primeira vez, em média mais de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. As novas avaliações também devem abordar as consequências de intervenções destinadas a remover dióxido de carbono da atmosfera.
A disputa ocorre em meio a divergências sobre a divisão dos custos e responsabilidades diante da elevação das temperaturas. A Coalizão de Alta Ambição, que reúne mais de 30 países, defende que os dados científicos recentes orientem uma resposta baseada em evidências.
O Ministério da Economia da Rússia classificou como "deturpação deliberada" a apresentação do debate como um confronto com países produtores de petróleo. Para o governo russo, alinhar o ciclo de avaliações às negociações da ONU levanta dúvidas sobre a independência do IPCC. Thiagarajan Jayaraman, representante da Índia no painel, chamou de "míope" a ideia de que o valor do trabalho do órgão dependa apenas de sua contribuição para as negociações de 2028.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirma que os esforços globais para limitar o aquecimento estão abaixo do necessário e que é preciso reduzir as emissões mais rapidamente. Cientistas associaram as mudanças climáticas a incêndios florestais na Europa e a deslizamentos de terra e inundações repentinas que mataram centenas de pessoas no Nepal e no Tibete chinês.



