SANTA ROSA — O aquecimento do Pacífico oriental provocado pelo El Niño está afastando anchovetas, atuns e pargos das áreas próximas à costa. A migração para águas mais frias reduziu a pesca artesanal e deixou povoados do Equador, Peru, Panamá e Guatemala em dificuldades.
Na região, a temperatura do mar aumentou até 6°C. No Equador, a elevação chegou a cerca de 3°C na superfície e até 6°C a 40 metros de profundidade. O oceanógrafo Jonathan Cedeño afirma que o fenômeno reduziu a produtividade marinha e a captura de algumas espécies.
Em Santa Rosa, no sudoeste equatoriano, Juan Ollague, 56, voltou de uma noite de trabalho com apenas seis bonitos, um tipo pequeno de atum. Centenas de barcos se concentram em um porto parcialmente paralisado. Darwin Zambrano, 53, relata que espécies maiores da família do atum, como albacoras e bonitos, deixaram de aparecer em sua rede.
Mais distância e custos maiores
Em Veracruz, perto da Cidade do Panamá, Rigoberto González, 59, diz que precisa navegar para mais longe e passar mais tempo no mar. Com isso, aumentaram os gastos com comida, gelo e combustível para conservar e transportar o pescado. Ele captura pargos, serras e barracudas.
No Panamá, parte dos pescadores prefere não sair. Jesús Morales, líder do sindicato de pescadores artesanais do país, afirma: “Não podemos continuar perdendo”. A redução das chuvas associada ao El Niño também forçou a diminuição do tráfego pelo canal interoceânico.
Em Iztapa, na Guatemala, Eliseo Ovando, 50, conta que agora leva três dias para capturar o que antes conseguia em apenas um. No Peru, o deslocamento das anchovetas para águas mais frias levou pescadores a buscar atividades como a construção civil. O país é o principal produtor da espécie, usada na produção de ração para animais de criação e adubo.
A temperatura média dos oceanos, sem as regiões polares, chegou a 21,07°C em agosto, igualando o recorde de março de 2024, informou o observatório europeu Copernicus. As temperaturas elevadas são associadas às mudanças climáticas e ao El Niño, que amplia seus efeitos.
Efeitos no comércio
No Panamá, o vendedor Carlos Nieto, 46, afirma que há menos mariscos e que, às vezes, os produtos chegam estragados pelo calor. Ele gasta cerca de US$ 600 (R$ 3,1 mil) por mês em gelo. No Equador, o preço do dourado e da bicuda dobrou por causa da escassez, segundo a indústria.
Em Santa Rosa, a falta de dinheiro provocou o fechamento temporário de restaurantes diante do porto. Francisco Orlando, 37, que corta filés de pescado, espera que os barcos voltem cheios. Janeth Toasa, 54, diz que a queda da renda reduziu o consumo e atingiu os moradores do povoado.



