São Paulo, Segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Dólar R$ 4,99 · Euro R$ 5,58 · Ibovespa 209.067 -0,00%
A economia explicada todos os dias
Brasil

Como Maria ocupou o centro do sagrado feminino no catolicismo

Especialistas associam a devoção mariana a tradições antigas, mas ressaltam que Maria não é considerada uma divindade pela teologia cristã.

Como Maria ocupou o centro do sagrado feminino no catolicismo
Foto: AFP

A devoção a Maria ganhou espaço no cristianismo católico ao longo dos séculos e passou a ocupar uma posição central em uma tradição religiosa marcada por figuras masculinas. Especialistas ouvidos no debate associam esse processo à presença de símbolos femininos já encontrados em religiões antigas, embora façam ressalvas à ideia de que Maria seja uma deusa.

Jesus e os 12 apóstolos eram homens, assim como as principais formas tradicionais de representar Deus —como pai, criador, senhor e rei. Nesse contexto, a figura de Maria, apresentada nos textos bíblicos como a jovem nazarena que concebeu Jesus, foi reforçada por dogmas e tradições, como a virgindade perpétua e o título de mãe de Deus.

Para Lucas Nascimento, linguista, professor na UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e coordenador do Laboratório de Análise do Discurso e da Argumentação Religiosa, esse processo pode ser analisado por perspectivas teológica, sociológica, arquetípica e discursiva. Ele afirma que “a estrutura da fê da psiquê humana não tolera desequilíbrios absolutos”.

Na leitura teológica citada por Nascimento, Maria não foi elevada para ser equiparada a uma divindade pagã. Ela passou a representar a criatura humana redimida e uma presença materna na relação entre os fiéis e Deus. O professor também menciona a palavra hebraica Ruach, associada ao “sopro criador” e apresentada no feminino.

Símbolos anteriores ao cristianismo

Na perspectiva arquetípica, Nascimento recorre ao livro A Grande Mãe, do junguiano alemão Erich Neumann (1905-1960). Ele afirma que, antes de Cristo, diferentes sociedades cultuavam figuras femininas ligadas à terra, à fertilidade, à proteção e ao mistério da vida e da morte. Entre os exemplos estão Ísis, no Egito; Ishtar, na Mesopotâmia; Cibele, na Frígia; e Deméter, na Grécia.

A antropóloga e historiadora Lidice Meyer, professora na Universidade Lusófona, em Portugal, cita representações artísticas desde o Paleolítico para apontar uma relação entre religiosidade e maternidade. Segundo ela, a figura de Maria se fortaleceu durante a cristianização de povos politeístas e funcionou como elemento de aproximação para a conversão.

Nascimento situa esse processo na cristianização e na inculturação do Império Romano a partir do século 4º. Com a expansão do cristianismo, santuários, ritos e imagens associados a divindades femininas locais teriam recebido novos significados ligados a Maria. Características como o manto azul, a lua aos pés, o cetro de rainha e a imagem da mãe que amamenta uma criança também foram incorporadas à iconografia mariana, segundo o professor.

Ressalvas teológicas

Maurício Solfa, frade franciscano, filósofo, teólogo e psicanalista, afirma que é possível fazer essa associação simbólica sem concluir que Maria seja uma deusa. Para ele, Maria ocupa um espaço feminino que, em várias culturas, havia sido relacionado a figuras divinas, mas continua não sendo uma divindade na teologia católica.

Solfa também rejeita uma explicação segundo a qual a Igreja Católica teria simplesmente transformado antigas deusas em Nossa Senhora. Na avaliação dele, o cristianismo encontrou culturas com arquétipos femininos religiosos fortes, criando um terreno simbólico para a expansão da devoção mariana.

O teólogo e pastor luterano Valdir Steuernagel ressalta que a tradição cristã não apresenta uma deidade feminina personificada em Maria. Já Gerson Leite de Moraes, teólogo e historiador e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que a associação aconteceu gradualmente. Para ele, Maria passou a representar o feminino dentro de uma hierarquia religiosa masculina, assumindo a imagem de uma divindade de rosto materno.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.