Uma discussão sobre candidatos que chegam a entrevistas de emprego com café gelado ganhou espaço nas redes sociais e passou a representar um debate mais amplo sobre as regras não escritas do ambiente profissional.
A origem foi um vídeo de Caitlin Wehniainen, recrutadora da empresa americana On Cue Hire. Com 16 anos de experiência em contratações para empresas formais, ela afirmou que levar uma bebida para a entrevista pode transmitir informalidade excessiva. Para ela, em uma conversa de 30 a 35 minutos, a forma como o candidato é percebido tem peso.
“Não entre na entrevista todo descontraído, com um café gelado”, disse Wehniainen.
Pequenos gestos e avaliação profissional
A reação nas redes sociais foi rápida e dividida. Algumas pessoas questionaram por que levar o próprio café seria desrespeitoso, especialmente quando empresas costumam oferecer bebidas durante entrevistas. Outras disseram que entrevistas já são situações estressantes e criticaram a cobrança por regras consideradas estranhas.
Louise Ashley, professora associada da Queen Mary Business School e pesquisadora de mobilidade social, afirmou que o debate parece tratar de algo pequeno, mas revela como os entrevistadores avaliam se alguém parece profissional. Segundo ela, não existe uma regra formal contra entrar em uma entrevista com um latte gelado. Ainda assim, a adequação à vaga pode ser julgada tanto por capacidades objetivas quanto pela maneira como o candidato se comporta na ocasião.
Ashley também relacionou o tema à classe social e ao capital social. Ambientes profissionais têm normas que raramente são explicadas, e pessoas criadas em famílias cercadas por profissionais podem ter mais contato com esses códigos. Outras precisam aprendê-los sozinhas e correm o risco de errar.
Ela acrescentou que também pode haver status em parecer descontraído, confiante e ligeiramente desinteressado — como se o candidato demonstrasse que gostaria do emprego, mas não depende inteiramente dele.
A geração mais recente como alvo
Bobby Duffy, autor de The Generation Myth, afirmou que o episódio repete o padrão de considerar a geração mais jovem menos motivada ou profissional do que as anteriores. Ele citou o trabalho do sociólogo industrial Michael Rose, que escreveu no início da década de 1980 sobre críticas semelhantes aos jovens daquela época.
O trabalho se tornou tema frequente de conteúdos virais no TikTok, incluindo expressões como “quiet quitting”, para descrever a decisão de cumprir apenas a jornada contratada, e “lily padding”, associada à troca frequente de empregos.
Na visão de Wehniainen, a intensidade da reação mostra como o mercado de trabalho está estressante. Uma orientação apresentada como útil acabou sendo percebida por parte dos candidatos como mais uma exigência.
O debate ainda contrasta com a ideia de que empresas buscam pessoas capazes de contestar, pensar de forma diferente e demonstrar singularidade. Na prática, a avaliação de candidatos também pode favorecer quem se encaixa em padrões de comportamento já conhecidos.



