CAÇADOR — A queda de uma araucária de mais de 40 metros mobilizou pesquisadores da Embrapa, que recolheram brotos e amostras do tronco para preservar o patrimônio genético da árvore. Conhecida como Pinheirão, ela ficava em uma floresta experimental mantida pela Embrapa Florestas e pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), em Caçador (SC).
A suspeita é que a árvore tenha tombado em fevereiro deste ano. A queda só foi percebida dois meses depois, no final de abril, durante a manutenção de uma estrada que atravessa a floresta.
O especialista em clonagem Ivar Wendling, engenheiro florestal da Embrapa, encontrou ramos que ainda produziam brotos quatro meses depois da queda. Além de recolher material no chão, ele subiu em uma araucária vizinha para obter brotos preservados na copa, a mais de 40 metros do solo. As amostras foram levadas para a sede da Embrapa Florestas, na Região Metropolitana de Curitiba.
Na estufa, os cientistas produziram cerca de 50 clones pelo método de enxertia. O procedimento consiste em unir um ramo do Pinheirão a uma muda jovem cultivada a partir de semente. Se o enxerto se consolidar após 100 dias, será obtida uma cópia com 100% do DNA da árvore original.
Tronco será usado para estimar idade
Um disco de madeira retirado do tronco também foi enviado a um laboratório no Paraná. A amostra passará por secagem lenta, para evitar rachaduras, e depois será polida para revelar os anéis de crescimento.
A dendrocronologia, ciência que examina essas marcas anuais, poderá indicar a idade exata da araucária e reconstituir as condições climáticas da região ao longo dos séculos. A estimativa inicial é que o Pinheirão tivesse entre 400 e 500 anos quando caiu.
Em outro estudo, Marcelo Scipioni, professor do curso de engenharia florestal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), identificou 325 anéis em uma araucária gigante que ocupava a 24ª posição no ranking nacional. Anéis mais largos estão associados a anos mais quentes e chuvosos; os estreitos indicam períodos de seca.
O excesso de água no solo reduz a resistência das raízes e pode fazer com que o peso da árvore provoque sua queda. Ao longo dos séculos, o apodrecimento do centro do tronco também pode formar cavidades internas com mais de 10 metros de altura.
Poucas araucárias gigantes sobrevivem
Para a ciência, uma araucária é considerada gigante quando o tronco tem 1,50 metro de diâmetro. O levantamento de Scipioni contabiliza 24 árvores em Santa Catarina, 15 no Rio Grande do Sul, 8 no Paraná e 2 em Minas Gerais.
A maior araucária do país está na área rural de São Joaquim (SC). É a única registrada com mais de 3 metros de diâmetro e tem idade estimada em mais de 600 anos.
Entre 1900 e 1970, durante o ciclo madeireiro, a araucária foi a árvore mais derrubada do país. Atualmente, restam 3% da cobertura florestal original, que ocupava 200 mil quilômetros quadrados no Sul do Brasil, área equivalente ao dobro do território catarinense.



