SÃO PAULO — A importação de diesel russo para o Brasil resultou em uma disputa empresarial que envolve pedidos de indenização de até R$ 3,7 bilhões. A controvérsia opõe a brasileira Dia 33 à Coral Energy, grupo sediado em Dubai que passou a operar sob o nome 2Rivers.
A Dia 33 pede desde 2025, no Centro Internacional de Arbitragem de Dubai, o ressarcimento de US$ 703 milhões à Coral/2Rivers. Em meados deste ano, a entidade determinou o arresto de bens dos acusados durante a análise do processo. A decisão foi confirmada por um órgão equivalente em Hong Kong.
O conflito começou após uma parceria comercial firmada no começo de 2024. A joint venture previa a divisão dos lucros obtidos com a comercialização de diesel russo. O acordo foi encerrado poucos meses depois e deu origem a processos na Justiça brasileira e na arbitragem de Dubai.
A Dia 33 acusa a Coral de atrair seus principais executivos para uma operação paralela e de utilizar clientes, escritórios e estrutura da empresa. A companhia pede R$ 138 milhões em indenização. Também afirma que a rival concedeu descontos com conhecimento de sua política comercial e promoveu uma campanha que afastou clientes.
O caso é analisado pela Justiça paulista e por um inquérito policial na capital. Antigos funcionários chegaram a ocupar um escritório da Dia 33 em São Paulo. No ano passado, a 3ª Vara Empresarial da capital apontou indícios de concorrência desleal e tentou restringir ações associadas à Coral.
A defesa dos acusados nega irregularidades. Fernando Galera, ex-diretor de operações da empresa, afirmou que o episódio foi uma discussão societária relacionada a uma minuta de acordo que não chegou a ser concluída.
A Coral também apresentou uma acusação contra a Dia 33, dizendo que a rival se apropriou indevidamente de uma carga de diesel. Em processo na Justiça do Paraná, a empresa estrangeira pediu o bloqueio de R$ 133 milhões, mas a liminar foi negada.
A Dia 33 afirma ter acumulado prejuízos com dívidas trabalhistas e custos de armazenamento de combustível, que poderiam chegar a R$ 800 milhões. Empresas do grupo solicitaram recuperação judicial, mas o pedido foi indeferido em julho deste ano.
Mercado russo
A disputa ocorreu durante a expansão das vendas de diesel russo ao Brasil após a União Europeia aprovar sanções contra o petróleo e seus derivados, em dezembro de 2022. Até agosto deste ano, o Brasil recebeu 11% das exportações russas do produto, atrás da Turquia, com 26%, e da China, com 12%.
A Rússia chegou a responder por 90% do diesel importado pelo Brasil em abril deste ano. O país compra 30% do derivado no exterior. O fluxo diminuiu após ataques ucranianos a refinarias russas e depois que Vladimir Putin impôs um veto às exportações no fim de junho, medida que continuou sendo renovada.
Em agosto, os Estados Unidos tinham 74% do mercado brasileiro, e não houve chegada de diesel russo ao país naquele mês. O governo federal calcula que cerca de R$ 99 bilhões em diesel russo tenham sido importados durante o período, em valores ajustados.
A Coral Energy, de origem azerbaijana e baseada em Dubai, chegou a concentrar 80% das vendas por meio de subsidiárias e empresas associadas, segundo estimativas de mercado. A partir do fim de 2024, o grupo foi alvo de sanções europeias por ultrapassar o limite aceito para pagamentos de petróleo e derivados russos. Uma operadora brasileira ligada à 2Rivers também entrou em um pacote de sanções britânicas no começo deste ano, mas nega irregularidades.
A exposição internacional e o processo de dissolução da 2Rivers podem dificultar a execução de decisões favoráveis à Dia 33. O conflito se soma a outras investigações sobre o uso de diesel russo no Brasil, incluindo suspeitas de fraude tributária envolvendo o Grupo Refit e a utilização de empresas fantasmas pelo PCC para comprar e revender o combustível.



