SÃO PAULO — O poder de compra de alimentos do brasileiro chega às eleições de 2026 acima do nível registrado antes do primeiro turno de 2022, mas ainda abaixo da média observada antes da pandemia. Projeções indicam que a recuperação completa não deve ocorrer pelo menos até dezembro de 2027.
O levantamento é do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence. A análise calcula quantas cestas básicas podem ser compradas com o salário mínimo e com o rendimento médio do trabalho.
Em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 permitia comprar o equivalente a 1,8 cesta básica. O cálculo considera o preço médio de R$ 900,59 para a cesta na cidade de São Paulo. Não há uma média nacional para esse conjunto de alimentos.
O resultado é 11,3% maior que o registrado em agosto de 2022, quando o salário mínimo era de R$ 1.212 e a cesta paulistana custava R$ 749,78. Apesar da melhora, o poder de compra atual está cerca de 13% abaixo da média entre 2010 e 2019, período em que o piso comprava 2,07 cestas básicas em São Paulo.
Renda média também fica abaixo do padrão pré-pandemia
A mesma comparação foi feita com o rendimento habitual de todos os trabalhos no país. No trimestre encerrado em agosto de 2026, a renda média era de R$ 3.777 por mês. Esse valor correspondia a 4,07 cestas básicas, considerando o preço médio de R$ 927,02 em São Paulo nos mesmos três meses.
O nível supera em 15% o de agosto de 2022, quando a renda comprava 3,54 cestas. Ainda assim, fica aproximadamente 15% abaixo da média de 4,82 cestas registrada entre 2010 e 2019. Os dados de rendimento usados no levantamento são calculados pelo IBGE.
Na série histórica, que reúne dados desde 1998, o maior resultado ocorreu em março de 2012, quando o salário mínimo equivalia a 2,28 cestas básicas.
A cesta analisada pelo Dieese reúne 13 alimentos: carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga.
Risco para os preços e disputa eleitoral
De acordo com as projeções de Imaizumi, a capacidade de compra deve permanecer abaixo da média anterior à pandemia até pelo menos dezembro de 2027, tanto para o salário mínimo quanto para a renda do trabalho.
Analistas apontam o El Niño como o principal risco para a inflação dos alimentos a partir do fim de 2026. O fenômeno pode alterar a distribuição das chuvas e prejudicar a produção agropecuária. Em caso de perdas no campo, os repasses podem chegar ao consumidor final.
O custo dos alimentos também aparece na disputa presidencial. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem associado os preços nos supermercados ao governo Lula. A campanha do presidente rebateu as críticas. Em propaganda eleitoral, Lula disse: “Tem gente prometendo baixar o preço das coisas. Mas, quando eles tiveram a caneta na mão, o arroz e o feijão chegaram às alturas”.
Para o cientista político José Niemeyer, professor do Ibmec no Rio, emprego, inflação e poder de compra podem influenciar eleições. Em 2026, ele avalia que o emprego se sobrepõe às demais variáveis, em um cenário de mudanças no mundo do trabalho. Apoiadores de Lula também destacam a queda do desemprego desde 2023, o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a defesa do fim da escala 6x1.


