SÃO PAULO — A melhora em atividade, emprego e renda não se transformou em vantagem eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A percepção negativa sobre a economia, influenciada por endividamento, inadimplência e preços dos alimentos, contribui para limitar as intenções de voto no presidente e favorecer a reação de Flávio Bolsonaro (PL).
Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o momento macroeconômico oferece dados concretos que poderiam sustentar uma avaliação mais positiva do governo. O cientista político Antônio Lavareda, porém, avalia que o Palácio do Planalto não disputou de forma eficaz a narrativa econômica.
Na avaliação de Lavareda, o governo permitiu que o debate fosse dominado por notícias sobre dívidas, atrasos nos pagamentos e custo de vida. Com isso, a situação econômica passou a ser vista de forma pior do que a avaliação que os brasileiros fazem da própria vida e do futuro.
A oposição explorou a percepção de que os alimentos continuam caros. Flávio apareceu em supermercados e usou anúncios na internet e na televisão. Vale também citou a disseminação de informações falsas nas redes sociais como um fator que dificulta a percepção sobre a melhora dos indicadores.
O economista afirmou ainda que existe cansaço em relação a Lula e que o presidente foi prejudicado pela crise envolvendo o STF. Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, o endividamento das famílias pesa fortemente na avaliação da economia, apesar dos bons números de emprego e renda.
Dívidas e percepção financeira
Dados da CNC mostram que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, o maior nível da série histórica iniciada em 2010. Em agosto de 2022, o índice era de 79%. A parcela de famílias inadimplentes chegou a 29,9%.
A pesquisa Datafolha indica que 45% classificam a situação financeira pessoal e familiar como regular. Outros 12% consideram a condição ruim ou péssima. Embora 43% avaliem a própria situação como ótima ou boa, uma parcela semelhante diz que o dinheiro disponível não basta para manter o orçamento.
Quando a pergunta trata da renda, 34% afirmam que o dinheiro recebido pela família não é suficiente e que às vezes falta. Outros 15% dizem que a renda é muito baixa e causa muitas dificuldades. Ao todo, 49% relatam algum grau de insuficiência financeira.
A avaliação é mais negativa entre grupos que concentram parcela relevante do eleitorado. Consideram ótima ou boa a própria situação financeira 36% dos entrevistados com ensino fundamental, 33% daqueles com renda familiar de até dois salários mínimos e 32% das classes D e E.
Existe, porém, expectativa de melhora. Entre as classes D e E, 65% acreditam que a situação financeira vai melhorar nos próximos 12 meses. O percentual é de 62% entre entrevistados com ensino fundamental. No conjunto da população, 71% esperam alguma melhora.
Renda, alimentos e disputa no segundo turno
Levantamento de Bruno Imaizumi, da 4intelligence, mostra que o poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica aumentou desde 2022. Em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava 1,8 cesta básica em São Paulo, ante 1,62 em agosto de 2022.
O rendimento médio do trabalho no Brasil chegou a R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto. O valor correspondia a 4,07 cestas básicas, acima das 3,54 de agosto de 2022.
Mesmo com esses indicadores, a última pesquisa Datafolha antes da votação mostra Lula com 47% dos votos totais no segundo turno, contra 46% de Flávio. O resultado configura empate dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No levantamento anterior, Lula tinha 48%, e Flávio, 45%.
A curva do candidato do PL é ascendente. Em cerca de dez dias, Flávio avançou em praticamente todos os grupos considerados mais sensíveis pelo bolsonarismo, incluindo classe média, Sudeste, homens e evangélicos.



