O próximo governo terá de lidar, a partir de 2027, com a combinação de crédito mais restrito, consumo em desaceleração e contas públicas pressionadas. O cenário envolve também o endividamento recorde de empresas e consumidores e uma taxa básica de juros de 13,75% ao ano.
A dívida bruta do Brasil está próxima de 83% do PIB, o maior nível em cinco anos. Para economistas, a política fiscal será o principal desafio, porque a contenção da dívida é considerada necessária para que a Selic continue em queda.
Famílias e empresas reduzem o ritmo
As projeções para a atividade econômica vêm diminuindo. A estimativa atual é de crescimento do PIB de 1,86% em 2026 e de 1,41% no ano seguinte. O consumo, que avançou em média 3,3% nos últimos cinco anos, deve crescer cerca de 1% neste ano e no próximo.
O consumo das famílias já recuou 0,4% no segundo trimestre, na comparação com os primeiros três meses do ano. O movimento ocorre em meio aos juros elevados e ao endividamento da população.
A Serasa registra 83,9 milhões de inadimplentes no país. No crédito livre, a inadimplência das famílias chegou a 8% em agosto, segundo o Banco Central. Economistas do BTG Pactual e do FGV Ibre avaliam que o endividamento pode afetar o consumo no ano que vem, especialmente porque parte dos brasileiros assumiu dívidas em modalidades caras.
O governo Lula defende o aperfeiçoamento das regras de oferta e de responsabilidade na concessão de crédito, com acompanhamento do endividamento de famílias e empresas. O programa de governo de Flávio Bolsonaro propõe o “Ganha, Ganha”, que prevê pontuação positiva para quem paga contas em dia e conclui cursos, com possibilidade de acesso a juros menores.
As empresas também enfrentam juros altos e restrição de crédito. Nesse ambiente, recorrem a recuperações judiciais e extrajudiciais para suspender cobranças, renegociar dívidas e manter as operações. Dados da consultoria RGF mostram que o número de empresas em recuperação judicial passou de 3.823 para 6.341 entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre deste ano, uma alta de 65,8%. Agronegócio, transporte e logística e varejo puxaram o avanço.
Ajuste fiscal no centro da disputa
O governo Lula aponta a necessidade de revisar pelo menos R$ 53,7 bilhões em despesas obrigatórias até 2030. A medida aparece nas projeções do PLOA de 2027 e teria como objetivo preservar as demais políticas públicas no patamar atual.
A equipe de Flávio Bolsonaro falou em reduzir despesas em 1,5% do PIB e criar um novo teto de gastos baseado na relação entre dívida e PIB, mas não detalhou como atingiria o resultado. Também foram avaliadas mudanças na vinculação constitucional de despesas de saúde e educação. Na saúde, a referência atual é de 15% da receita corrente líquida; na educação, de 18% da receita líquida de impostos.
Outra possibilidade estudada foi desvincular a política de valorização do salário mínimo dos benefícios da Previdência. Nesse caso, aposentados e pensionistas teriam reajuste apenas pela inflação, sem ganho real. Depois da repercussão, Flávio Bolsonaro negou que a alteração estivesse em análise.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou a representantes da Faria Lima que podem ser endurecidas as regras fiscais e acionados gatilhos do arcabouço fiscal para conter o aumento das despesas obrigatórias.
Mais de 90% das despesas federais são obrigatórias, segundo Adriana Dupita, economista para mercados emergentes da Bloomberg Economics. Para ela, reduzir as despesas discricionárias ao menor nível dos últimos 17 anos melhoraria o resultado fiscal em cerca de 0,3% do PIB, abaixo do ajuste de 2% a 3% do PIB estimado como necessário para estabilizar a dívida pública.
“Qualquer que seja o presidente vai ter que mexer na questão fiscal, que é a mais relevante”, afirma Sergio Vale, economista da MB Associados. Ele avalia que a tarefa exigirá negociação com o Congresso e mudanças em despesas obrigatórias e gastos tributários.
Mercado de trabalho ainda sustenta atividade
O mercado de trabalho parte de uma situação diferente da observada em 2022, com desemprego em mínimas históricas e recordes de ocupação, empregos com carteira assinada e rendimento salarial. A expectativa é de aumento da desocupação no ano que vem, ainda em nível historicamente baixo.
Entre os problemas apontados estão a informalidade próxima de 40% da mão de obra, a expansão do trabalho por aplicativos, a pejotização, os efeitos da inteligência artificial sobre vagas de entrada, a pressão sobre a Previdência associada à longevidade e a distância entre a formação profissional e as necessidades do mercado.
Para Gustavo Bertotti, diretor de renda variável da Fami Capital, os candidatos precisarão apresentar propostas fiscais críveis. José Luis Oreiro, economista e professor da UnB, considera o cenário imprevisível. Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, afirmou que a reação do mercado dependerá do resultado do primeiro turno e da percepção sobre a capacidade de contenção fiscal.
A avaliação de Adriana Dupita é que há espaço para queda de juros com um pacote fiscal crível, mas não se espera um ajuste tão amplo quanto os adotados por Javier Milei na Argentina. Dario Durigan, Sergio Vale, Solange Srour, José Luis Oreiro, Adriana Dupita e Gustavo Bertotti apontam, em avaliações distintas, que 2027 exigirá decisões sobre despesas, dívida, crédito e crescimento.



