A surpresa do primeiro turno alterou as projeções de analistas para os ativos brasileiros. A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pelo segundo turno não havia sido incorporada aos preços, segundo as avaliações reunidas após a eleição. A expectativa é de maior volatilidade e de um pregão com mais apetite por risco nesta segunda-feira (5).
Às 22h, o contrato ativo de real futuro com vencimento em novembro de 2026 avançava 3,97%. O MSCI Brazil EWZ, ETF que replica o Ibovespa, subia 8,96% na Bolsa de Nova York.
Fernando Siqueira, diretor da Eleven, afirmou que parte do movimento já havia sido antecipada nos últimos dias, mas que o desempenho da oposição poderia provocar uma reação positiva. Leonardo Mendes, economista da Manchester Investimentos, classificou o cenário como uma possibilidade de reprecificação positiva dos ativos brasileiros no curto prazo.
Projeções para Bolsa, dólar e juros
Analistas associam uma eventual vitória de Flávio a maiores chances de ajuste fiscal nas contas públicas e de queda dos juros. Esse ambiente poderia favorecer ativos de renda variável e reduzir as taxas negociadas no mercado futuro.
O BTG Pactual estima que as ações brasileiras poderiam retornar rapidamente à média histórica de 10 anos caso Flávio Bolsonaro vencesse, com potencial de ganho entre 11% e 20%. Em um cenário de alta do Ibovespa até um desvio-padrão acima da média, o avanço poderia ficar entre 32% e 45%.
Para Márcio Gomes, fundador da Orus Capital, o dólar poderia recuar para R$ 4,70 a R$ 4,50 em uma vitória de Flávio. Luiz Francisco Secco, da Veedha Investimentos, projeta valorização de 10% a 15% para o Ibovespa e dólar em R$ 4,90, mas considera que o diferencial de juros pode limitar esse movimento.
Se Lula for reeleito, o BTG Pactual projeta o Ibovespa em 170 mil pontos, cerca de 10% abaixo do nível atual. O banco também calcula desvalorização de 10% a 15% para o real, levando o dólar a uma faixa entre R$ 5,70 e R$ 6,00.
Bruno Drezza, chefe de pesquisa quantitativa da Vault Capital, citou o comportamento observado em anos nos quais o primeiro turno divergiu das pesquisas: alta próxima de 5% para a Bolsa e queda de cerca de 3% a 4% para o dólar na sessão seguinte. As stablecoins vinculadas ao dólar também indicaram reação inicial: o USDT recuava 1,2% ante o real desde o fechamento das urnas, com volume quatro vezes maior que o de um domingo comum.
Fiscal, Congresso e setores mais sensíveis
A curva de juros também pode fechar, em uma indicação de taxas menores nos próximos anos. Esse movimento tende a favorecer a marcação a mercado de títulos prefixados e papéis de longo prazo ligados ao IPCA+.
Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos, afirmou que o fator central é a possibilidade de mudança na trajetória fiscal, e não apenas o candidato. Para ela, uma melhora nas pesquisas para Flávio pode ser parcialmente revertida se a disputa ficar mais equilibrada no segundo turno.
Nomes associados à equipe econômica de Flávio, como Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, e Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia na gestão de Jair Bolsonaro, também são considerados bem recebidos pela Faria Lima.
Economistas do UBS BB não projetam transferência de votos para Lula no segundo turno ao comparar a eleição atual com a disputa de 2022, quando o petista recebeu votos de Simone Tebet (PSB) e Ciro Gomes (PSDB). O relatório foi assinado por Alexandre de Azara, Rodrigo Martins e Fabio Ramos e divulgado na sexta (2).
A composição do Senado mais à direita também foi apontada como um fator positivo para o mercado. Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, afirmou que o desenho do Congresso interfere na percepção sobre governabilidade e na capacidade de aprovar a agenda econômica a partir de 2027.
Na semana anterior, o Ibovespa acumulou alta de 4,71%, enquanto o dólar avançou 0,62%, para R$ 5,22. Os juros de curto prazo caíram. Na sexta (2), último pregão antes do primeiro turno, a Bolsa subiu 2,62%, aos 192.114 pontos, e o dólar recuou 0,13%, para R$ 5,216.
Ações de bancos, varejo, construtoras e empresas menores, conhecidas como small caps, são vistas por Paloma Brum, da Peta Capital, como candidatas a liderar uma eventual alta, por serem mais sensíveis aos juros e ao prêmio de risco doméstico. Exportadoras como Vale, Suzano e Klabin podem ficar atrás com um real mais forte. Petrobras e estatais poderiam se beneficiar da expectativa de menor intervenção.
O VIX Brasil fechou em 32,77 pontos na sexta (2), o segundo recorde seguido e a maior marca desde sua criação, em 2024. O recorde anterior havia sido de 32,39 pontos, na quinta (1). O índice mede a volatilidade esperada para os 30 dias seguintes a partir de opções sobre o Ibovespa B3.
A reação positiva, porém, depende da execução da agenda econômica, segundo Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research. Ele avalia que ajuste das contas públicas e outras diretrizes precisariam avançar durante a transição; caso contrário, os ruídos poderiam retornar em seis a doze meses.



